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  Título
Documentário ambiental e leitura ecologizante
Autor
Janaina Welle
Resumo Expandido
O ambiente, seja ele natural ou construído, é tudo o que nos cerca, podendo ser entendido também como o lugar onde se situa a ação de uma narrativa em uma produção cinematográfica. A imagem fílmica e o espaço narrativo estão relacionados com o ambiente por serem ambos elementos que carregam em si a percepção, concepção e experiência de mundo do realizador e participam também da construção da percepção e concepção de mundo do espectador.



"Os textos cinematográficos, com suas apresentações audiovisuais sobre indivíduos e seus habitats, afetam nossa imaginação sobre o mundo circundante, e portanto, potencialmente, nossas ações a respeito desse mundo". (Rust e Monami, 2013, p. 2, tradução nossa)



Partirmos das bases teóricas da ecocrítica, que propõe a leitura ecológica de textos literários, buscando corroborar a ligação de interdependência, nem sempre evidente, entre a imaginação humana, em todas as suas formas, e o ambiente. Os estudos que relacionam ecologia e literatura, segundo Glotfelty (1996), mantiveram-se até a década de 1990 em trabalhos isolados e foi somente no fim dessa década que emergiu como uma escola de crítica literária reconhecida. O autor salienta que na maioria das teorias literárias “o mundo” é sinônimo de sociedade, de esfera social, e para a ecocrítica, a noção de “mundo” é ampliada, incluindo também a ecosfera. A perspectiva ecocrítica encara o ambiente como o emaranhado que nos circunda, o mundo físico e cultural. O cinema está dentro desse emaranhado, ele consome o mundo, já que seu modo de produção necessita de recursos físicos, artísticos e mentais e, ao mesmo tempo, ele também é consumido pelos espectadores.



Nossa proposta de acercamento ao nosso corpus, os documentários nacionais de longa metragem selecionados para a mostra competitiva do Festival Internacional de Cinema Ambiental, se dá a partir da ecocrítica, ou seja, a partir de uma leitura ecológica dos filmes. Para tanto, iremos associá-la à abordagem semiopragmática proposta por Roger Odin (2012). O teórico afirma que o sentido de um filme é construído no momento de sua produção, ou seja, na intenção de seu realizador em fazer um filme de ficção ou não-ficção e, no momento de sua recepção, de sua interação com o espectador. O autor argumenta que todo filme, de ficção ou não-ficção, é passível de uma leitura documentarizante (Odin, 2012), que aborde o filme, ou trecho de filme, como um documento, leitura esta que pode ser descontínua, prolongada ou pontual.



O documentário ambiental é um veículo para verdades, mitos e ideologias. Analisar seu modo de organização narrativa e discursiva, bem como seus modos de recepção e de uso no espaço público, ajudam a entendê-lo. Nossa hipótese é que os documentários ambientais do nosso corpus, por estarem inseridos em um festival dedicado ao cinema ambiental, conduzem a uma leitura que encare o filme como um documento de instrução ecológica. Orienta uma leitura que foca na relação e interação entre sociedade e ambiente, o que chamaremos aqui de leitura ecologizante.



Há uma relação entre três instâncias, o filme, a instituição e o leitor, sendo que essa relação nem sempre é pacífica. Um filme demanda um tipo de leitura por elementos estilísticos ou textuais inseridos na obra; a instituição, ou contexto, indica um outro modo de leitura; e o espectador, reage à sua maneira às indicações de leitura das duas instâncias anteriores. A leitura dos filmes de nosso corpus, por se situarem na seleção de um festival de cinema temático conduz os espectadores a uma leitura ecologizante. A presente apresentação irá analisar alguns títulos de nosso corpus, a saber, “As Hiper Mulheres” (2011) de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro e, “Terra Deu, Terra Come” (2010) de Rodrigo Siqueira, a partir das bases teóricas esboçadas acima.

Bibliografia

CÉSAR, Amaranta. Tradição (Re)Encenada: o documentário e o chamado da diferença. In: Revista Devires. Belo Horizonte, v.9, n.1, Jan/Jun 2012

CESARINO, Pedro de Niemeyer. Os caminhos de terra deu, terra come. Novos estud. - CEBRAP, São Paulo , n. 90, Julho de 2011 . Disponível em .

GLOTFELTY, Cheryll and FROMM, Harold (Eds). The Ecocriticism Reader: Landmarks in Literary Ecology. Athens and London: University of Georgia, 1996.

ODIN, Roger. Filme documentário, leitura documentarizante. Significação – Revista de Cultura Audiovisual - USP. Ano 39, n. 37, 2012.

RUST, Stephen e MONAMI, Salma. Introduction: cuts to dissolves – defining and situating ecocinema studies. In: RUST, Stephen; MONAMI, Salma e CUBBIT, Sean (Eds.). Ecocinema Theory and Practice. New Yo