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  Título
Do cinema aos fotogramas: os dispositivos na obra de Solon Ribeiro
Autor
Annádia Leite Brito
Resumo Expandido
O artista cearense Solon Ribeiro herdou uma coleção com 10 mil fotogramas catalogados em álbuns confeccionados artesanalmente e cerca de outros 25 mil fotogramas soltos. Todos eles foram coletados por seu pai na cidade do Crato, interior do Ceará, extraídos de rolos de filmes do cinema clássico, eminentemente hollywoodiano, feitos entre as décadas de 1920 e 1960.

Desde 2005, Ribeiro vem realizando trabalhos com esse material, se apropriando das imagens e as deslocando em outras configurações para desestabilizar seu lugar e ativá-las para outras possibilidades de fruição. Em três exposições individuais – O golpe do corte (CCBNB/Fortaleza, 2005), Quando o cinema se desfaz em fotograma (CCBNB/Fortaleza, 2008) e O cinema é meu playground (MAC-CE, 2013) – foram utilizados cerca de dez dispositivos de visualização de imagem para recompor os fotogramas, porém, fora da seara da forma cinema (PARENTE, 2011) e da metodologia cinéfila e cristalizadora do arquivo (DIDI-HUBERMAN, 2012), que desejava manter a imagem como índice dos filmes assistidos. São projetores artesanais, monóculos, pequenos backlights de led, impressão em tecido, entre outros. Entende-se que tais aparatos sejam o meio pelo qual se desenvolvem as ações de apropriação e deslocamento, sendo cada uma das duas condição necessária para que a outra aconteça.

Ao propor um apanhado dos dispositivos utilizados nas obras de Solon Ribeiro, busca-se, através da análise de cada um, compreender quais as consequências na ressignificação da imagem por meio da articulação dos elementos internos de cada aparato. Essa questão é levantada particularmente em cada dispositivo e termina por trazer um problema geral, uma linha de força dentro do trabalho do artista.

Para tanto, inicia-se por firmar a base do conceito de dispositivo aplicado ao cinema por Baudry (1983) para, em seguida, chegar aos aparatos de Ribeiro estabelecendo contrapontos e aproximações. Nesse momento, é necessário recorrer à filosofia de Foucault (2009), Deleuze (1996) e Agamben (2009) sobre o dispositivo, além do aparato em Flusser (2008), para que seja possível alargar as frestas da teoria de Baudry no tocante à modificação na linguagem do cinema e, por conseguinte, em sua percepção.

Por fim, abordar a ação constante de Ribeiro em deslocar as imagens em diferentes composições de visualização remete aos conceitos de jogador (FLUSSER, 2008) e traidor (DELEUZE, 1998) por sua habilidade em “torcer” a linguagem cinematográfica para dela extrair uma potência em outras configurações e ativar a temporalidade múltipla interna às imagens, que desemboca na possibilidade fabulatória do espectador.

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009.

BAUDRY, Jean-Louis. Cinema: Efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base. In: XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.

DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? In: _________. O mistério de Ariana. Lisboa: Vega, 1996.

__________; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. Pós: Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 204-219, nov. 2012.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

PARENTE, André. Cinema em trânsito: cinema, arte contemporânea e novas mídias. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011.