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  Título
Espaços, imagens, interações coletivas e suas configurações
Autor
Fernanda de Oliveira Gomes
Resumo Expandido
Nas diversas experimentações com imagens em movimento, identificadas no contexto contemporâneo, podemos identificar algumas propostas que entram em diversos tipos de interações e contaminações, não só com os espectadores, mas também com os espaços, culturas e contextos nos quais são inseridas. Geralmente os artistas que fazem parte deste recorte são identificados como verdadeiros agentes, principalmente no processo de produção e recepção de instalações interativas expostas em espaços públicos.



O artista mexicano Rafael Lozano-Hemmer pode ser apontado como um exemplo de artista agente, que leva diversas obras para os espaços públicos, possibilitando trocas entre espectadores, seus corpos, seus gestos, imagens e dispositivos, em propostas que apresentam grandes complexidades técnicas. Sua obra "Body Movies", exposta em diversos países, transforma o cenário urbano cotidiano em uma espécie de teatro de sombras e imagens a partir de projeções de corpos em grande escala. Percebemos diversos tipos de interações possíveis: interação entre corpo e espaço público, entre corpo e imagem e entre os próprios espectadores, que se transformam em interlocutores a partir do momento em que se relacionam com os dispositivos espaciais e tecnológicos. As características próprias de cada lugar em que a obra é instalada determinam as configurações das experiências vividas, no momento em que os espectadores entram em contato com seu sistema dispositivo. Estas características são determinadas principalmente por aspectos culturais e sociais, que tornam aquele espaço único, assim como as pessoas que o habitam.



A partir da perspectiva de Flusser (2008), podemos afirmar que o mundo antes conhecido, vivenciado e valorizado pelas linhas escritas passou a ser dominado pelas superfícies imaginadas. Além de exercer influências sobre as mensagens, as constantes mutações nas estruturas da mediação também provocam mutações nas vivências, conhecimentos e valores. “O mundo não se apresenta mais enquanto linha, processo, acontecimento, mas enquanto plano, cena, contexto” (FLUSSER, 2008, p. 15). A nova estrutura social que está se consolidando, a da sociedade informática, organiza as pessoas em torno de imagens, exigindo novo enfoque sociológico e novos critérios.



Cada vez mais os artistas se conscientizam dos modos de produção e das relações humanas possibilitadas pelas técnicas de sua época. A arte torna estes modos de produção muito mais visíveis, possibilitando estender suas consequências na vida cotidiana. Chegamos então aos modelos experimentais e participativos, que substituem a concepção racionalista da modernidade e as relações humanas submetidas ao autoritarismo. Aqui se origina a obra de arte que Bourriaud define como arte relacional. As obras já não têm como objetivo formar realidades imaginárias ou utópicas, mas sim constituir modos de existências ou modelos de ação dentro do real já existente. Portanto, o que se buscam são as interações humanas, seu contexto social e a obra em processo. A arte, feita da mesma matéria que as trocas sociais, ocupa um lugar particular na produção coletiva (BOURRIAUD, 2006). Quando bem sucedida, uma obra ultrapassa sua simples presença no espaço, pois se abre para o diálogo, para a discussão, para um processo temporal que se desenvolve no aqui e no agora, para essa forma de expressão humana que Marcel Duchamp chamava de coeficiente da arte.



Na visão de Flusser (2008), a sociedade se constitui como um conjunto de comunidades de jogadores. Nesse contexto o artista deixa de ser visto como criador e passa a ser visto como um jogador que brinca com pedaços disponíveis de informação. Segundo o autor esta é precisamente a definição do termo diálogo: troca de fragmentos disponíveis de informação. No entanto, o artista brinca com o propósito de produzir informação nova, participando dos diálogos com o objetivo de produzir algo imprevisto.

Bibliografia

BELLOUR, Raymond. Entre-Imagens: Foto, Cinema, Vídeo. Campinas: Papirus Editora, 1997.



BOISSIER, Jean-Louis. A Imagem Relação. In: MACIEL, Kátia (org). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009.



BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. Buenos Aires: Adriana Hidalgo editora, 2006.



DE CERTEAU, Michael. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2009.



DUBOIS, Philippe. Sobre o “efeito cinema” nas instalações contemporâneas de fotografia e vídeo. In: MACIEL, Kátia (org). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009.



FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.



GODOY, Paulo. Uma reflexão sobre a produção do espaço. Estudos Geográficos. Rio Claro, 2 (1): 29-42, jun. 2004.



RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.



SANTOS, Milton. Uma ontologia do Espaço: noções fundadoras. IN: A natureza do Espaço. São Paulo: Edusp, 2001.