/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Cinema na Educação Básica: gesto de alteridade e criação
Autor
Adriana Mabel Fresquet
Resumo Expandido
Em 2009, o Ministério de Ciência e Tecnologia divulgou uma chamada -ENCOMENDA MCT/SEBRAE/FINEP - Ação Transversal Cooperação ICT/MPE - Economia da Cultura 02/2007, que até finais de 2011 concluiu duas fases de seleção mais de 400 projetos apresentados por 17 estados, contemplando integralmente oito. Um deles surgiu da Faculdade de Educação da UFRJ e propôs a criação de quatro escolas de cinema em escolas públicas do Rio de Janeiro, a partir da experiência desenvolvida pela Escola de Cinema do Colégio de Aplicação da UFRJ, desde 2008. A UFRJ convocou escolas municipais, estaduais e federais da rede pública de ensino, via edital publicado no DOU 134. Pela experiência nesta área, convidamos a Alain Bergala como consultor. Durante 2012, promovemos um Curso de Aperfeiçoamento e em 2013, as quatro escolas finalistas foram equipadas para iniciar seus projetos de produção e cineclubismo, incluindo uma coleção completa da Programadora Brasil.

O fundamento teórico-metodológico aproxima a hipótese-cinema da proposta ranceriana que parte da igualdade das inteligências e da possibilidade e criar uma relação de ensino-aprendizagem que potencie a emancipação intelectual e a partilha sensível dos conhecimentos e afetos criados na relação entre professores e estudantes, ao mesmo tempo, espectadores e produtores. Para introduzir numa análise crítica e criativa de filmes (Bergala, 2002) foram exibidos: Onde fica a casa do meu amigo (Abbas Kiarostami, Irã, 1987); O pequeno fugitivo (Morris Engel, Ray Ashley e Ruth Orkin, EUA, 1953) e Mutum (Sandra Kogut, Brasil, 2007). Um acervo de mais de 50 trechos de filmes de épocas e países diferenciados foi selecionado para que projetados em determinadas sequencias provocassem a emergência de conceitos da linguagem e da historia de um modo não didatizado, apostando na pedagogia do fragmento (Bergala, 2002). Quatro exercícios básicos relacionaram os pressupostos teóricos com ações/criações: minuto Lumière, tourné/monté, ensaio “ocultar/revelar“ e plano comentado. As notas de Bresson (2005) atravessam cada exercício. Por se tratar de um curso oferecido pela faculdade de educação o corpo docente foi constituído predominantemente por cineastas, pesquisadores e profissionais da criação cinematográfica. O projeto produziu um currículo de cinema na educação básica e um dicionário de cinema com verbetes inspirados no Abecedário de Gilles Deleuze, disponíveis no site www.cinead.org.

Ao concluir o projeto, infinitos aprendizados se organizam, multiplicam e capilarizam através da partilha que as redes possibilitam hoje. Por um lado, consideramos que fazer uma experiência de introdução ao cinema, dentro e fora de uma escola em crise, traz, para professores e alunos de educação básica, aprendizados específicos, além dos indícios do que não é possível ver e saber, do ponto de vista individual, e nisto ganha força a presença do outro para a construção social e reticulada do conhecimento. A possibilidade de identificar essa relação de alteridade, mediada pela câmera, ativa a tensão entre dois estados cuja potência pedagógica o cinema movimenta com especial competência: crer e duvidar (Comolli, 2008). Transitar entre esses dois polos emancipa modos de ver e de pensar, quando descobrimos e alteramos o mundo, criando, com o outro. Por outro lado, surgem algumas perguntas e indagações acerca da relevância que um projeto deste tipo pode ter do ponto de vista do cinema contemporâneo: qual a contribuição de iniciativas que surgem da interação de políticas públicas em diálogo com diferentes níveis e modalidades de ensino: projetos audiovisuais permeando relações entre universidade e educação básica; educação de professores e estudantes de baixa visão/cegos, de baixa audição/surdos; classes hospitalares; educação infantil; educação de jovens e adultos? Propostas nesta direção podem deslocar regimes de visualidade e modos de criar que pressuponham a alteridade, pelo fato de iniciar cedo gestos de cinema no projeto escolar?

Bibliografia

BERGALA, A. L’hipothèse-cinéma. Petit eraité de tansmission du cinèma à l’école et ailleurs. Paris: Petit Bibliothèque des Cahiers du Cinéma, 2006.

BERGALA, A. Alteridade. In: FRESQUET, A. M.; NANCHERY, C. Abecedário de cinema com Alain Bergala. Rio de Janeiro: LECAV, 2012. DVD. 36’, cor.

BRESSON, R. Notas sobre o cinematógrafo. São Paulo: Iluminuras, 2005.

COMOLLI, J.-L. Ver e poder: a inocência perdida – Cinema, Televisão, Ficção, Documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.

DELEUZE, G. O abecedário de Gilles Deleuze. Entrevista com G. Deleuze. Editoração: Brasil, Ministério da Educação, TV Escola, 2001. Paris: Éditions Montparnasse, 1997, VHS, 459 min.

RANCIÈRE, J. El espectador emancipado. Buenos Aires: Manantial, 2010.

RANCIÈRE, J. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.