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  Título
“FEITO POEIRA AO VENTO”, ESCRITURA DO TEMPO-ESPAÇO NO CINEMA PINHOLE
Autor
Maria Cristina Miranda da Silva
Resumo Expandido
O estudo parte da análise do video ...feito poeira ao vento... (2006) do artista e fotógrafo paraense Dirceu Maués. Realizado em stop motion, a partir de uma sequencia de mais de 900 fotografias produzidas por uma camera pinhole, o vídeo explora a movimentação e o burburinho dos trabalhadores e frequentadores do Mercado Ver-o-Peso, na zona portuária de Belém do Pará, exibindo “a transmutação do espaço/movimento da feira em um giro de 360 graus”, do seu agitado inicio ao esvaziamento no final. (MAUÉS, 2013)

A fotografia pinhole consiste em utilizar uma câmera sem objetiva (lente) para captar a luz e grava-la sobre uma superfície sensível (filme ou papel fotográfico). No lugar da lente fazemos um orifício bem pequeno, da dimensão da ponta de uma agulha. O dispositivo pode ter dimensões variadas (caixa de papelão, caixa de fósforo, lata...) e proporciona a realização de fotografias com qualidades estéticas diferenciadas das imagens digitais a que estamos habituados.

Conforme destacou Herkenhoff (s/d), Maués se fundamenta nos conceitos da ‘Filosofia da Caixa Preta’ (FLUSSER, 1998), na necessidade do artista desvendar o aparato técnico que produz a imagem. Seu trabalho se insere no conjunto da prática, de diversos artistas contemporâneos, na utilização do cinema em suas obras (DUBOIS, 2013; PARENTE, 2013) e na recuperação de processos históricos/alternativos na produção da imagem fotográfica que remetem a sua origem (pinhole, cianotipia, goma bicromatada etc). O trabalho em análise, em especial, apresenta desdobramentos da relação entre a fotografia e o cinema: a passagem da estaticidade da imagem fotográfica para o movimento intrínseco à imagem cinematográfica, ou, na definição de Herkenhoff (s/d), “do estado estacionário da fotografia, para uma existência cinemática”.

Conforme descrito pelo artista, “O vídeo começa com a projeção de fotografias que rapidamente se aceleram revelando o movimento (cinema).” O ritmo das imagens que se sobrepõem sequencialmente, em espaços de tempo diferenciados entre elas, produz “um movimento quebrado, não linear, que causa certo estranhamento.” Entre uma imagem e outra, por vezes, vemos um rastro, um ‘instante dilatado no tempo’, o vestigio da duração do tempo no espaço. Soma-se, ainda, o caráter cíclico do registro em seu giro panorâmico de 360 graus. Tais efeitos vinculam-se à forma da produção das imagens, “Sob um tempo que não é o tempo real (do instantâneo), nem o tempo urbano dos relógios, mas o tempo (im)preciso de uma camera artesanal, sem visor nem lente.” (MAUÉS, 2013)

A relação tempo-espaço aguçada pela natureza das imagens pinholes no filme de Maués, presente em diversas obras de artistas conteporâneos (como nas fotografias de longa exposição de Michael Wesely e/ou de Hiroshi Sugimoto), pode ser relacionada aos aparelhos ópticos do século XIX, sobretudo na capacidade que estes dispositivos possuem de transparecer a sua estrutura de funcionamento (a qual denominamos ‘visibilidade’) e, ao mesmo tempo, de fornecer ao observador imagens ilusórias, ‘fantasmagorias’. Podemos também, inscrevê-la em experiências dos anos iniciais do cinema, o chamado ‘primeiro cinema’, especialmente no que se refere ao caráter cíclico das primeiras imagens.

O que hoje chamamos de linguagem do cinema, traduzida no modelo do cinema narrativo hegemônico é, na verdade, o resultado de opções estéticas e de pressões econômicas. “A história efetiva do cinema deu preferência à ilusão em detrimento do descerramento, à regressão onírica em detrimento da consciência analítica, à impressão de realidade em detrimento da transgressão do real.” (MACHADO, 1997:24)

Nesse sentido, a poética criada pela técnica e pela natureza das imagens pinhole de Maués em ... feito poeira ao vento... (2006), em sua escritura do tempo no espaço, (re)organiza o observador das imagens, situando-se entre o ver e o não ver, entre visibilidades e fantasmagorias, produzindo deslocamentos em relação ao modelo hegemônico de cinema.

Bibliografia

DUBOIS, Philippe. Um “efeito cinema” na arte contemporânea. In: Luis Claudio da Costa (org.). Dispositivos de registro na arte contemporânea. Rio de Janeiro: Contra Capa / FAPERJ, 2009.

FATORELLI, Antonio. Fotografia contemporânea: entre o cinema, o vídeo e as novas mídias. Rio de Janeiro: SENAC Nacional, 2013.

FLUSSER, Vilém. Ensaio sobre fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio D’água, 1998.

HERKENHOFF, Paulo. Dirceu Maués: território em transe e trânsito. s/d.

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas e pós-cinemas. Campinas, SP: Papirus, 1997.

MAUÉS, Dirceu da Costa. ... Feito poeira ao vento... . In: MONTEIRO, R. H. e ROCHA, C. (Orgs.). Anais do VI Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual. Goiania-GO: UFG, FAV, 2013.

MICHAUD, Philippe-Alain. Aby Warburg e a imagem em movimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

PARENTE, André. Cinemáticos. Tendências do Cinema de Artista no Brasil. Rio de Janeiro: + 2 Editora, 2013.