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  Título
A reescritura dos rastros de memória em dois filmes de J.L. Guerín
Autor
Roberto Ribeiro Miranda Cotta
Resumo Expandido
Os conceitos descortinados por Pierre Nora (1984) acerca dos lugares de memória estendem o âmbito meramente geográfico do termo para uma definição muito mais fracionada, na qual os objetos (sejam eles materiais ou simbólicos) também podem se configurar como lugares de memória, ou seja, como escrituras narrativas de um presente que recompõe rastros, cicatrizes e intempéries capazes de enfrentar a passagem do tempo e resistir às nuances do esquecimento. Nesse sentido, pode-se afirmar que tanto Innisfree (1990) quanto En Construcción (2001) são filmes que buscam a realização de um percurso de registros que tende a encarar as possibilidades de desaparecimento de memórias individuais e sociais, redefinindo lugares preestabelecidos e encontrando nos rastros, nas pessoas e nos objetos estruturas suficientes para combater esse apagamento.

Em Innisfree (1990), Guerín confecciona um registro ensaístico idílico composto por entrevistas, relatos, narrações, cantorias e encenações que retomam, redescobrem ou forjam as lembranças do processo de filmagem de Depois do Vendaval (1952), de John Ford, em um pequeno povoado irlandês. Confrontando a iminência da morte, uma vez que a maioria dos habitantes que vivenciaram esse processo têm aproximadamente 80 anos, o cineasta catalão torna tais registros uma partilha da reatualização das memórias individuais dessas pessoas e também uma investida em prol da reconstrução do imaginário coletivo que atravessa a história dessa comunidade.

Já En Construcción (2001) parte de uma investigação processual que durou aproximadamente 3 anos em torno das transformações sofridas pelo bairro Raval, em Barcelona. O local, cuja maior parcela de moradores dispõe de baixa renda, enfrenta uma brusca tentativa de reabilitação de seu espaço urbano, que consiste na demolição de antigas casas para a construção de conjuntos habitacionais direcionados à classe média. Indiretamente, o filme também vai antecipar alguns traços do caos econômico sofrido pela Espanha no final da primeira década dos anos 2000, quando essa estrutura de investimentos econômicos desmedidos presenciou seu gargalo.

Dessa forma, Guerín apresenta um posicionamento muito firme quanto ao tema, na medida em que põe em foco alguns dos personagens marginalizados por esse reordenamento espacial do bairro. A partir de um registro que propõe a indefinição de regimes documentais e ficcionais, o cineasta apresenta formas contundentes de mostrar a potência opressora que esse júbilo social impõe aos envolvidos. As memórias individuais vão sendo trazidas à tona com o intuito de refazer a escritura histórica do bairro, dos seus moradores, daqueles que esperam resistentes a incontornável e brutal transformação anunciada.

Por fim, vale ressaltar que nas várias estratégias de registro esquadrinhadas nos dois filmes, percebe-se uma tentativa iminente de reescritura histórica dessas memórias individuais com o interesse não apenas da preservação, mas principalmente com o desígnio da recondução delas para um lugar de pertencimento que é atualizado a todo instante e que ganha novos contornos plano a plano, cena a cena.

Parte dessa questão pode ser evidenciada em dois momentos distintos registrados nessas obras: 1 - quando o cineasta escolhe as crianças do povoado (e não os mais velhos) para contar diante de uma câmera fixa e frontal os desenlaces narrativos presentes no filme de John Ford, atribuindo a eles um olhar quase virginal de quem não participou diretamente da história, mas que foi perpassado por ela através do tempo [Innisfree]; 2 – quando os operários acham um cemitério romano debaixo dos escombros, moradores se aglomeram nos arredores em busca da decifração da origem dessas ossadas. Assim, o filme escava ao mesmo tempo a história do bairro e as memórias dos moradores, numa metáfora que atualiza e torna evidente a possibilidade de apagamento ou soterramento de ambas devido às abruptas transformações urbanas colocadas em xeque pelo cineasta [En Construcción].
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida - cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.



NORA, Pierre. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984.



PUÉRTOLAS, Longi Gil. En Construcción, José Luis Guerín (2001). Valencia/Barcelona: Nau Llibres, Colección Guías para ver y analizar cine, 2010.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2ed. São Paulo: 34, 2009.



RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1984.