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  Título
O discurso gráfico nas mostras de cinema retrospectivas do CCBB
Autor
Gianna Gobbo Larocca
Resumo Expandido
A partir dos anos 1990, o Rio de Janeiro assistiu ao surgimento dos centros culturais. Fundamentados no modelo Beaubourg, esses espaços foram projetados para o abrigo de manifestações culturais transitórias e não para a salvaguarda de obras de arte como nos museus tradicionais e passaram, por essa orientação e amparados pela Lei de Incentivo, a acolher, entre outras atividades, mostras de cinema, notadamente no caso do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Inicialmente o material gráfico informativo que acompanhava essas mostras eram programas simples, compostos em geral por grades de programação, dados técnicos dos filmes e textos de apresentação do patrocinador e curador. Enquanto os catálogos de festivais de cinema continuaram sendo projetados como roteiros do evento, os catálogos das mostras de cinema do Rio de Janeiro se diversificaram. O material foi ganhando volume (físico e de investimento financeiro e curatorial), merecendo atenção editorial e gráfica privilegiada por parte das companhias produtoras. Desde então, catálogos foram projetados com ambições de se tornarem obras de referência sobre seus temas, ultrapassando o caráter de mero roteiro e registro da mostra em questão para se tornarem testemunhos editoriais e gráficos eloquentes de um projeto curatorial e um discurso sobre o cinema.

Tal relação entre os campos do design e do cinema não é exclusiva, evidentemente. Conforme aponta Baptista (2006), na produção cinematográfica essa interface se desenvolve usualmente na atividade do diretor de arte e do designer de créditos, mas pode abranger, quando a função do production designer se aplica, todo o planejamento do conceito visual do filme, desde a escolha de locações às opções de videografismo e se estender à composição dos produtos de divulgação: site, trailer, cartazes, DVD, games.

Na difusão do cinema como patrimônio cultural, o catálogo parece ser a peça chave para a interlocução entre os campos. As capas dos catálogos, similarmente aos cartazes, criam sinteticamente uma identidade visual para a mostra e, como eles, levantam não apenas questões conceituais pertinentes ao assunto abordado, mas respondem também a imperativos de outras ordens, como a comercialização ou atração da audiência para o evento que anunciam, e carregam as marcas do seu período histórico-cultural e das convenções de design vigentes, conforme aponta o estudo de Albertino (2008).

Os miolos dos catálogos, por sua vez, podem se constituir como obra informativa de maior fôlego, por vezes com intenções pedagógicas ou militantes de uma determinada visão sobre o cinema. Mas, sobretudo, os catálogos propiciam, na relação de imagens e elementos tipográficos dispostos na página e na sua extensão, efeitos de montagem e o desenvolvimento de narrativas. Assim encontramos narrativas gráficas mais convencionais, cujo foco parece ser a legibilidade e a clareza da estrutura editorial; narrativas desconstruídas, como a do catálogo da retrospectiva de Glauber Rocha que dispensa as divisões de sessões e o recurso a grid estruturante; narrativas afetivas, como o “álbum de família” da retrospectiva de David Neves.

Esse estudo traz como recorte os catálogos de mostras retrospectivas de cineastas, um eixo curatorial que parece ter sido privilegiado pelo CCBB nos últimos anos. Embora as retrospectivas estejam presentes na programação do CCBB desde sua fundação, nos anos 1990 os temas nacionais eram mais recorrentes (na esteira da Retomada), assim como temas ligados a uma linguagem “própria” do vídeo. A opção por tal foco é interessante também pela variedade de abordagens gráficas, ora expressivas de um olhar curatorial sobre o tema, ora mais ajustadas, por exemplo, com o posicionamento de determinado diretor na esfera da alta cultura como um autor de cinema.

A partir da análise deste material, o estudo pretende ampliar o diálogo entre design e cinema e abordar o papel do design como discurso, produção de conhecimento e agenciador da comunicação destes eventos.
Bibliografia

ALBERTINO, Simone. O design de cartazes no Cinema Marginal e na Pornochanchada. Dissertação de Mestrado. Departamento de Artes e Design/PUC-Rio, 2008.

BAPTISTA, M. A. “Design e cinema: Caminhos cruzados entre a pesquisa e a criação artística”. In: SILVA, J. (org). Design, arte e tecnologia: espaço de trocas. São Paulo: Rosari, 2006.

BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. São Paulo: Brasiliense/Edusp, 1994

BRANT, Leonardo (org). Políticas culturais. São Paulo, Manole, 2003.

CARDOSO, Rafael. Uma introdução à história do design. São Paulo: Blucher, 2008.

JOST, François; GRAUDREAULT, André. A narrativa cinematográfica. UNB: Brasília, 2009.

MELO, C. H. de & RAMOS, E. Linha do tempo do design gráfico no Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

NAGIME, Mateus. Curadoria e programação de filmes nas salas de repertório do Rio de Janeiro: 2006-2013. Monografia. Departamento de Cinema e Vídeo/UFF, 2013.

POUGY, Alice. A Cinemateca do MAM e os cineclubes do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1996.