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  Título
A escola sob o risco das images: o projeto "Inventar com a Diferença"
Autor
Isaac Pipano Alcantarilla
Resumo Expandido
Em 2002, a convite da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense inicia a criação de um projeto de cinema, direitos humanos e educação, em escolas públicas do ensino fundamental e médio de todos os estados brasileiros. Ao promover o encontro entre tais instituições e problemáticas, com seus singulares agentes, configurações estéticas, políticas, linguagens, a proposta teve de se ver com questões inerentes à militância dos direitos humanos e os processos de exclusão; à políticas das imagens no contexto de produção subjetiva próprio da contemporaneidade; à situação da sala de aula e à escola em sua constante identificação como tecnologia obsoleta.

Ao mesmo tempo em que todas essas forças pareciam ser indissociáveis da construção de uma metodologia apta a enfrentar o paradoxo da crítica à escola (se ela se tornou tão impotente, por que dedicarmos esforços teóricos e práticos ainda condicionados à sua existência?), não poderia ser ignorado o longo percurso histórico do cinema e sua presença na sala de aula. Revelando o desejo de educadores, dentro e fora das graduações de cinema no país, em criar processos de inclusão das imagens para além de um mero uso ilustrativo das demais disciplinas do currículo regular, a proposição metodológica baseou-se num esforço de sistematização de uma série de atividades, com ou sem câmera, já experimentadas nos espaços escolares por inúmeros projetos no país afora.

Partindo de novos desafios e antigos problemas, o projeto Inventar com a Diferença propõe então uma metodologia que ainda se orienta a pensar o lugar do professor, reconhecendo que a emancipação intelectual é um processo que não ignora o mestre ou mesmo a escola, mas busca criar novos modos de encontro entre estudantes e alunos, forjando uma comunidade onde os processos de aprendizado são coletivos, como também o são os próprios meios de inventá-lo.

Diante da severa apropriação do espaço escolar por dispositivos disciplinares e próprios da sociedade de controle, nos postulados de Foucault e Deleuze, como câmeras, monitores, catracas eletrônicas, senhas, uniformes, o presente trabalho busca perceber quais são as consequências, não apenas intelectuais, mas propriamente estéticas e políticas, afetivas e corpóreas, que a entrada da câmera na sala de aula podem produzir nos sujeitos daquele espaço sensível. Dito de outro modo: quais são os corpos e subjetividades demandados pela presença da produção das imagens em sua relação com a alteridade na escola? Para tanto, lança mão de uma série de perguntas atravessadas por relatos da experiência de ocupação do projeto nas escolas brasileiras entre março e junho de 2014.

Podem tais práticas no campo do audiovisual e dos direitos humanos reconfigurar a escola em seus termos estéticos e políticos, inventando fissuras nos dispositivos disciplinares e na relação com o outro, modulando novos corpos, inventando formas de ensino-aprendizado baseadas em processos emancipatórios? Se a "arte não se ensina, mas se encontra, se experimenta", como formula Gordard, o que significa inserir a exceção para o espaço da regra, do domínio do calculado e do previsível? Podem essas imagens precárias, produzidas pelos jovens estudantes em suas oficinas, estabelecer um lampejo de resistência, no que concerne à representação e à possibilidade de inscrever com imagens seus próprios territórios sensíveis, tão em disputa pelo capitalismo contemporâneo?. O que podem essas imagens frente à grande luz da escola e os holofotes do conhecimento que ainda se direcionam insistentemente sobre a cabeça dos alunos?

Movido pelas perguntas, este trabalho procura apresentar cortes entre as práticas do projeto Inventar com a Diferença e suas tensões com o campo de reflexões acerca da igualdade das inteligências e da sala de aula como cena política.

Bibliografia

BERGALA, Alain. A hipótese cinema. Rio de Janeiro: Booklink ; CINEAD- LISE-FE / UFRJ, 2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da tolerância. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

RANCIÈRE, Jacques. O Mestre Ignorante - cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizote: Autentica, 2012.

SIBILIA, Paula. Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.