/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A QUEDA QUE O CINEMA TEM PELA RAINHA
Autor
Bernadette Lyra
Resumo Expandido
Do ponto de vista institucional, a ideia de gênero está pautada na tensão existente entre a necessidade de repetir e a obrigação de inovar, que, desde os primeiros tempos, organizou a indústria do cinema. Não é novidade alguma dizer que o cinema se deu a conhecer como uma experiência da repetição, ou, como diz João Mário Grillo, “como algo que passa por ser, primordialmente, a experiência do próprio espetáculo do cinema, antes de atender à natureza particular de cada filme e, especificamente, do seu conteúdo ou de suas convenções narrativas”( GRILLO, 1997, p. 147). Dessa imperativa condição de firmar-se em torno de si próprio em conjugação com a expectativa de atender às exigências de um público cada vez mais voraz e em busca de entretenimento variado, brotou uma cientificidade particular ao meio cinematográfico. Assim, pode-se mesmo confirmar que a noção de gênero é solidária dos sistemas de produção e difusão de filmes, ao mesmo tempo que se consolida como um produto teórico desses sistemas mesmos, como ensina o citado pesquisador português.

Dessa instância primordial até os dias de hoje, a noção de gênero foi submetida a uma trilha teórica e conceitual variada. Revisitando os questionamentos e debate, é possível afirmar que os gêneros são produtos que aliam certos aspectos temáticos e formais a um caráter transitório, em permanente processo estrutural de interação com os diferentes públicos, os múltiplos patamares críticos e os mercados fílmicos mais variados, tal com se depreende dos ensinamentos de Rick Altman, Edward Buscombe e outros teóricos da atualidade que além de conceituar, abrem categorias para abrigar a quase infinita fieira de produções genéricas.

Dentro dessa categorização, o filme histórico, por sua especificidade que se desenvolveu a partir do interesse da literatura pelo romance histórico, como se vê nos textos de Walter Scott, ocupa um lugar controvertido. Para alguns, não é possível falar em gênero, nesse caso, pois a representação do passado, ainda que no cinema, estaria dentro dos limites de atuação dos historiadores e não da ficção. Mas, para outros, o filme histórico apresenta autonomia enquanto gênero, uma vez que está sujeito às suas próprias leis internas da ficção e não à interferência do conhecimento acadêmico da história. Assim, pensar o filme histórico como um gênero traduz seu contrato com os códigos cinematográficos, com espectadores e com o mercado cinematográfico e sua independência dos domínios dos historiadores no que diz respeito à representação do passado no cinema.

Em um filme, as personagens e as ações se combinam ao ambiente, aos figurinos e a todos os demais aspectos formais de uma época para conferir a “suspensão da incredibilidade”, tornando plausível o enredo aos espectadores. E é possível que um enredo priorize as ações em detrimento de personagens. Porém, em determinados filmes históricos, prevalece uma personagem que, por sua força motriz, vai reger as ações das demais ao longo do enredo. É o caso da representação de figuras que deixaram uma marca no passado e, sob as mais variadas circunstâncias, servem de referência para as questões básicas da memória e do presente da humanidade. Uma dessas figuras constantemente revisitadas pelo cinema é a Rainha Elizabeth I, da Inglaterra que aparece não apenas como protagonista, mas também como participante em uma cronologia fílmica: Amours de la reine Elizabeth-1912 (Henri Desfontaines e Louis Mercaton):com Sarah Bernhardt. Fogo sobre a Inglaterra- 1937 (William K. Howard): Flora Robson como Elizabeth I. 

Meu Reino por um Amor-1939 (Michael Curtis): Bette Davis como Elizabeth I. O Falcão dos Mares-1940 (Michael Curtis): com Flora Robson novamente. 
A Rainha Tirana- 1955 (Henry Koste): 
Bette Davis mais uma vez. Elizabeth – 1998
 (Shekhar Kapur), vivida por Cate Blanchett. Shakespeare Apaixonado - 1998 (John Madden)
, com Judi Dench.


Elizabeth – A Era de Ouro- 2007 (Shekar Khapur): Cate Blanchett interpreta a rainha novamente.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: Brtish Film Institute, 2004.

BUSCOMBE. “A ideia de gênero no cinema Americano. Em PASSOS, Fernão Ramos (Org.) Teoria contemporânea do cinema.Vol. II. São Paulo: Senac, 2005.

COSTA, Grace Campos; DIAS, Rodrigo Francisco. “O cinema como narrativa histórica: Robert A. Rosenstone a Linguagem histórica fílmica”. Revista de História e Estudos Culturais. Vol. 7, ano VII, n. 2.

Maio, junho, julho, agosto de 2010.

GRILLO, João Mario. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio d’Água, 1997.

PARENT-ALTIER, Dominique. O argumento cinematográfico. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2004.

ROSENSTONE, Robert. A História nos filmes, os filmes na História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.