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  Título
O caminho dos VUs: desacordos entre potência e intensidade
Autor
José Cláudio Siqueira Castanheira
Resumo Expandido
Para Heagarty (2012) a ideia de intensidade está implicada em todo ruído. É tudo aquilo que sobra, o excesso, o não desejado. Não apenas em termos de volume. Intensidade não é uma propriedade exclusiva dos sons. É um sentido do qual tomamos consciência quando a percepção do tempo quantificado é perdida. A intensidade não se relaciona com o tempo cronometrado, antes, ela funciona internamente e externamente à duração. O ruído é capaz de induzir um estado de êxtase, em que a experiência ultrapassa o próprio ato de ouvir. Nesse sentido, o ruído não é apenas um excesso de potência, pode também ser pensado como uma falta dela.

De um modo geral, Hollywood tem trabalhado a intensidade como sinônimo de potência. Além dos exemplos mais comumente citados, como o Sensurround nos anos 1970, a intensidade média dos sons nas salas de cinema tem aumentado constantemente. O aumento de headroom dos sistemas digitais permitiu uma compressão excessiva da banda sonora, diminuindo as diferenças entre sons de menor e de maior volume. A prática não se restringe ao cinema. Na produção fonográfica, mais visivelmente em músicas pop, a compressão é um recurso dos mais usados. Assim, diminuindo-se a dinâmica, temos a sensação de que o som está constantemente alto.

O excesso de potência (visto muitas vezes como sinônimo de qualidade do sistema de som) e/ou o excesso de graves pode ser visto no cinema talvez como um retorno a um ambiente complexo e aparentemente caótico de sons. Tal multiplicidade da experiência sonora permitiria um nível de identificação e (seguindo a ideia de Ian Biddle) familiaridade com o universo do filme. Um sentimento de pertencimento nos pequenos sons ou de violência nos sons potentes.

Partindo dos conceitos propostos por Biddle (2013), Goodman (2010) e Trower (2012) este trabalho propõe um olhar crítico sobre o fetiche da potência, facilmente identificado em muitas das práticas sonoras contemporâneas.

Bibliografia

GOODMAN, Steve. Sonic warfare: sound, affect, and the ecology of fear. London: The MIT Press, 2010.



HEGARTY, Paul. A chronic condition: noise and time. In: GODDARD, Michael (Ed.); HALLIGAN, Benjamin (Ed.); HEGARTY, Paul (Ed.) Reverberations: the philosophy aesthetics and politics of noise. London: Continuum, 2012, p. 15-25.



BIDDLE, Ian. Quiet sounds and intimate listening: the politics of tiny seductions. In: THOMPSON, Marie; BIDDLE, Ian. Sound, music, affect: theorizing sonic experience. London: Bloomsbury, 2013, p. 203-222.



TROWER, Shelley. Senses of vibration: a history of pleasure and pain of sound. New York: Continuum, 2012.