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  Título
Haters gonna... Spread, o caso da novela Amor à Vida e o portal GSHOW
Autor
Glauco Madeira de Toledo
Resumo Expandido
É comum deparar-se na internet com conteúdos ácidos ou cômicos que remetem a produtos televisivos, tal como aconteceu com a novela Amor à Vida (Globo, 2013) As críticas e deboches estão relacionados principalmente a dois grupos, conhecidos como haters e trolls. Gray (2003) cunhou o termo anti-fã e Theodoropoulou (2007) restringiu o conceito inicial; Hater é, para Toledo e Pessotto, “um tipo de anti-fã que tem forte vínculo com o conteúdo, não necessariamente fiel a ele e que ataca de forma ríspida ou cômica as características que crê impedirem que o conteúdo seja melhor. O troll aqui apontado é quem debocha sadicamente na internet do conteúdo ficcional, sem o vínculo que tem o hater” (2014).

Para produzir conteúdo coerente sobre produtos televisivos é preciso conhecê-los. Páginas como “Morri de Sunga Branca” satirizam telenovelas, visando haters e trolls. Deduz-se que estes consomem também o produto televisivo, ou não teriam condições de compreender as sátiras. A fanpage do “Morri [...]” no Facebook tem mais de 550 mil curtidas. A Rede Globo, produtora de muitos dos produtos satirizados por eles e similares, iniciou a produção de conteúdo para esse mercado: seu portal de entretenimento Gshow o atinge e tem redator chamado Troll e posts criados pelos redatores do “Morri [...]”. Isso permite receber feedback negativo de seus produtos, atender usuários de sites que atacam sua programação, capitalizar o maior volume de acessos com anunciantes e redirecionar o público para a TV, em busca de elementos para trollar e odiar.

Jenkins propõe em “If It Doesn’t Spread, It’s Dead” (2009) o surgimento do conceito de spreadability, aqui traduzido como espalhabilidade. Sua sugestão é a substituição das ideias de “viral” e “memes” na compreensão de como os conteúdos transitam entre culturas. Essas metáforas biológicas sugerem que uma mensagem, quando bem construída, tem o potencial de se espalhar através de uma população, como um vírus - uma vez que cada indivíduo repassaria, de forma inconsciente, esta mensagem adiante. Jenkins lembra que, ao contrário da unidade biológica trazida no que é referenciado como “meme”, a cultura não é autorreplicante - ela é construída, desenvolvida e propagada através das pessoas:

Cultura não é algo que acontece conosco, e sim algo que construímos coletivamente. Certamente, qualquer indivíduo por ser influenciado pela cultura, moda, mídia, discursos e ideias que o cercam e preenchem seu cotidiano, mas indivíduos promovem suas próprias contribuições às culturas através das escolhas que tomam (JENKINS, 2009).

No conceito de viralidade, as mensagens são apenas retransmitidas, ou seja, compartilhadas em suas formas originais. Mas através de diversas formas, em diferentes níveis e em contextos múltiplos, ela é transformada, adaptada e retrabalhada. Deixar de lado a interferência humana e perceber essa relação apenas através do potencial da mensagem é não compreender com plenitude o potencial de se espalhar que um conteúdo tem. Esta nova visão preserva o que era útil nos modelos anteriores - pois continua a contemplar que o movimento de ideias entre pessoas cresce exponencialmente com o tempo e expande, desta forma, o impacto da mensagem -, mas evita metáforas não precisas, como “contaminação” e “infecção”. O principal deste conceito é compreender que o público possui uma função ativa neste “espalhamento”, e não são mais simples “portadores” de um “vírus”. A consequência desta nova forma de enxergar as relações entre público, produtores e conteúdos obriga a indústria de mídia a prestar mais atenção nas motivações dos consumidores e em desenvolver conteúdos que se alinhem mais adequadamente com esses interesses. Quanto mais espalhabilidade tiver um conteúdo, mais ele dá espaço para o público – agora ativo, participativo e conectado – redefini-lo em diferentes níveis, de diferentes formas, e por diversos nichos, inclusive haters e trolls, que consomem o conteúdo que “odeiam”.

Bibliografia

GSHOW. Disponível em: . Acesso em: 30 de mar. 2014.

JENKINS, H. If It Doesn’t Spread, It’s Dead. In: Confessions of an Aca-Fan. the official weblog of Henry Jenkins. 2009. Disponível em: . Acesso em: 30 de mar. 2014.

TOLEDO, G. M.; JARETA DE OLIVEIRA, B.; SILVA, E. S. A Game of Spread and Drill: os recursos de espalhabilidade e perfurabilidade em Game of Thrones. In: XXXVI Congresso de Ciências da Comunicação, Manaus, AM. Anais... São Paulo: Intercom, 2013. CD-ROM.

TOLEDO, G. M.; AFFINI, L. P. When you play the Game of Thrones, you spread or you drill. In: XVIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, Bauru, 2013. Anais... São Paulo: Intercom, 2013. CD-ROM

TOLEDO, G. M. PESSOTTO, A. H. V. Inimigos mais perto ainda: Globo produz conteúdo para trolls e haters. I Jornada Internacional GEMInIS - JIG 2014. (No prelo).