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  Título
Apagamentos e Intermitências em Rosangela Rennó e Oscar Munõz
Autor
Denise Trindade
Resumo Expandido
Neste artigo, propomos pensar algumas produções artísticas contemporâneas que possuem como referência o fotográfico, considerando sua invenção de narrativas visuais, nas quais aproximam-se do cinema através da temporalidade e do movimento. Diante dos novos desafios ao pensamento e ao olhar resultantes da hibridação entre pintura, instalações, fotografia, cinema e vídeo e das metamorfoses de linguagens, diferentes imagens nos impõem reflexões estéticas. Tendo como referencia considerações sobre a fotografia em algumas obras de Marcel Duchamp, verificaremos como a presença da ausência nos rastros de cinema na série Theaters de Hiroshi Sugimoto, nas imagens ‘entre-vistas’ dos “Apagamentos” de Rosangela Rennó e nas desaparições nos vídeos e instalações de Oscar Munõz. Estes trabalhos apresentam em seus ocultamentos e clandestinagem outras visibilidades .

Essa questão é desenvolvida pela crítica Rosalind Krauss ao abordar o uso do fotográfico por Marcel Duchamp. Dos vínculos encontrados por Krauss entre "O Grande Vidro" e a fotografia, destacamos primeiramente, o que ela aponta como uma impressão direta dos objetos sobre o vidro, oferecendo a sensação realista de suas presenças como em uma fotografia.

A poeira, aparece como possibilidade de compreensão do que a autora aponta como fotográfico:através da fixação de seu acúmulo sobre o vidro durante meses e incorporada na obra pelo artista, pode-se perceber a inscrição do tempo. Na foto “Criação da poeira” ( Elevage de Poussière) de Man Ray, este ato adquire maior visibilidade, revelando com proximidade o acúmulo do tempo.

O processo de “revelações” em Duchamp é para José GIL, um “desnudamento” e também uma narrativa dos mecanismos do desejo. Suas figuras são moldes, aparições negativas dos objetos em quatro dimensões, resultando em projeções sensoriais.

Já a série “Theaters” de Hiroshi Sugimoto, realizada entre 1978 e 1980 é uma expressão do fotográfico, tanto em seu aspecto “realista” como quer KRAUSS no que diz respeito as impressões e a luz, assim como no que GIL chama de aparições. Porém , para além destes aspectos, percebe-se que tais fotografias tornam visível uma compressão do tempo.

Ao inverter a situação cinematográfica, congelando todo o filme em uma imagem através de uma fotografia onde só aparecem os rastros da sala de cinema e uma tela vazia, esta série revela que as imagens encontram seu lugar no espectador, o que não é possível fotografar. O fotográfico é assim revelador de uma ausência, colocando o tempo fílmico em suspensão.

Para Hans BELTING, as salas de cinema, anteriormente relacionadas ao teatro e suas imagens ilusórias, transformam-se em lugares públicos das imagens, nos quais os espectadores experimentam-se a si próprios também como lugares de imagens onde suas próprias recordações fluem com aquelas da película que permanecem como lugar de lembranças.



A artista brasileira Rosangela Rennó produz uma série de nome “Apagamentos” em 2004 com a reutilização de imagens policiais fadadas ao desaparecimento e ao esquecimento questionando através do fotográfico a identidade e a memória. Em uma caixa de luz composta de diapositivos que registram planos de cenários de crimes em investigação, verifica-se que além da disposição das imagens semelhantes aos fotogramas, a leitura é interrompida por espaços em branco que sugerem intervalos, dialogando com a linguagem cinematográfica.

Oscar Munõz , artista colombiano, utiliza diferentes técnicas como pin-hole, projeções, instalações e vídeo. Ele manipula as imagens fotográficas a fim de aludir à natureza transitória das imagens. Em “Proyecto for un Memorial”, o artista usa água para fazer aparecer em uma superfície fotos de rostos de recorrentes vítimas da violência na Colômbia. No vídeo “Re/trato” (2003), ele desenha sobre uma pedra, um autorretrato que, antes de ser finalizado, desaparece, deixando em seu passar, em seu rastro, marcas de sobrevivência e identidade.
Bibliografia

BELTING, Hans. Antropologia de la Imagen. Katz Editores. Buenos Aires. 2007.

BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In Flavio Kothe (org.). EdÁtica. SP. 1985.

BELLOUR, Raymond. "Entre-Imagens - Foto, Cinema, Video", Ed. Papirus, São Paulo, Brasil, 1997.

COTTON, Charlotte. “A fotografia como arte contemporânea”. SP. Martins Fontes. 2010.

DIDI-HUBERMAn. George. A imagem sobrevivente. Contraponto. RJ. 2013.

Atlas, Como llevar ? El mundo a cuestas? Museu Nacional de Arte Reina Sofia, Madrid. 2010.

DUBOIS,PHILIPPE. O ato fotográfico.SP.Papirus.1993.

GIL, José. A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções. Relógio d’Agua. Lisboa.1996.

O Humor e a Lógica dos Objetos de Duchamp. Relógio dÁgua. Lisboa

2011.

KRAUSS, Rosalind. O Fotográfico. Ed. Gustavo Gili. Portugal. 2002.

MICHAUD, Philippe- Alain. Aby Warburg e a Imagem Movimento. RJ. Contraponto. 2013.