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  Título
Memórias animadas: o uso de animação no documentário latino-americano
Autor
Jennifer Jane Serra
Resumo Expandido
Nos últimos anos, a combinação entre narrativas não-ficcionais e técnicas de animação tem se popularizado, acompanhando novas tendências do cinema documentário, mais abertas ao diálogo com outras formas cinematográficas, e uma nova visão da animação, agora vista como uma ferramenta criativa para abordar temas “sérios”, mais associados ao universo adulto. Nesse contexto, a produção de filmes documentários que apresentam uso de técnicas de animação (em trechos ou no filme completo) e de animações sobre temas não-ficcionais se expandiu e conquistou espaço em festivais de cinema, incluindo festivais dedicados ao cinema documentário, como atestam obras como o premiado filme israelense Valsa com Bashir (Ari Folman, 2008). A interação entre cinema de animação e cinema documentário não é algo recente, mas, a animação foi utilizada ao longo da história do cinema principalmente como uma ferramenta para auxiliar na explicação de conceitos e ideias, como uma forma de suporte visual para conteúdos didáticos. Nos últimos anos, entretanto, a imagem animada passou a ser reconhecida como um meio de documentar o mundo, tão válido quanto o registro feito pela imagem de natureza fotográfica, o que gerou o reconhecimento de um novo gênero de filme documentário: o documentário animado. O objetivo deste trabalho é analisar a inserção de animação em filmes documentários latino-americanos recentes que fazem uso da imagem animada como uma forma de testemunho visual e como objeto da memória. Nessas produções, a animação tem um uso mais sofisticado do que apenas ilustrar didaticamente uma fala, ocupando, nesses casos, a função e o espaço de materiais de arquivo, sobretudo como uma ferramenta de visualização de memórias, como, por exemplo, a sequência da reconstrução do assassinato de Henning Boilesen no filme Cidadão Boilesen (Chaim Litewsk, 2009), feita com pequenos trechos de animação mesclados com imagens de arquivo e encenações. A animação tem a habilidade de tornar visível o que não pode ser captado pela câmera ou mesmo por nossos olhos como sentimentos, pensamentos e recordações, fazendo visível a dimensão subjetiva de uma experiência vivida, como atesta o filme chileno El Edifício de los Chilenos (Macarena Aguiló, 2010), em que um dos personagens utiliza a animação como meio de expressar sua visão pessoal da experiência com o “Projeto Lares”, um projeto de educação comunitária desenvolvido por militantes chilenos durante a ditadura no país. A animação permite também a visualização de eventos passados que não foram registrados pela câmera, através da interpretação visual de depoimentos, transpondo os depoimentos para o plano das imagens e transformando memórias em imagens em movimento, como os depoimentos de crianças traduzidos em desenhos animados no filme Pequeñas Voces (Jairo Eduardo Carrillo e Oscar Andrade, 2011) sobre crianças afetadas pela violência vivida na Colômbia ou os depoimentos de cartunistas brasileiros no filme A Guerra dos Gibis (Rafael Terpins e Thiago Mendonça, 2012), sobre a censura de quadrinhos eróticos durante a ditadura civil/militar brasileira. Vivemos um momento em que a voz narrativa em primeira pessoa tem um papel central na reconstrução do passado coletivo e de nossa experiência do mundo. Nesse contexto, a animação apresenta-se como uma importante ferramenta narrativa que promove o acesso à história social através de visões subjetivas ao afigurar-se como um tipo de um depoimento em formato de imagens em movimento.
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