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  Título
De Ford a Aïnouz: o movimento migratório de imagens de “segunda-mão"
Autor
Thais Blank
Resumo Expandido
O gesto de apropriação de imagens pré-existentes não é novo na história da arte. As práticas mais diversas de citação, deslocamento, montagem e colagem são exercidas ao menos desde as vanguardas artísticas do início do século XX. No entanto, na última década, o volume de produções audiovisuais que possui como recurso central a retomada de imagens pré-existentes parece crescer exponencialmente. Planos de câmera de segurança, filmes amadores e familiares, antigos programas de TV, materiais de variados formatos e origens se encontram em uma produção heterogênea que atravessa o campo da arte, da informação e do entretenimento audiovisual. O gesto da retomada é em si mesmo diverso: ilustração, manipulação, documento histórico e sociológico, marca de autenticidade, memória afetiva e visual, são inúmeros os papéis representados pelas imagens de arquivo.

Diante desta gigantesca onda do arquivo, que inunda as salas de cinema, os museus e os programas de televisão, alguns pesquisadores afirmam a necessidade de recuperarmos a origem das imagens. Esse é o caso da historiadora francesa Sylvie Lindeperg, que nos último dez anos vem trabalhando no sentido de reconquistar a historicidade do momento da filmagem e de revelar as condições de produção das imagens da Segunda Guerra Mundial, retomadas dentro das mais diversos produtos audiovisuais. Seu trabalho, como afirma Jean-Louis Comolli, opõe à atual velocidade de circulação de imagens, a lentidão persistente e obstinada de um olhar renovado sobre o cinema, que passa pela descrição minuciosa, pela intimidade com o corpo do filme, pelos múltiplos regressos e recolhimentos na presença de cada imagem (COMOLLI in LINDEPERG: 2013).

Esta comunicação se inspira no método de pesquisa de Lindeperg e propõe traçar um caminho que parte da obra acabada em direção ao arquivo, no esforço de enxergar as transformações ocorridas no interior das imagens ao longo das migrações no tempo e no espaço. Não se trata de desvalorizar o gesto do artista em nome de uma “verdadeira origem” das imagens, muito pelo contrário, esta jornada tem como princípio de base a noção de que os arquivos convocados nos filmes não devem ser entendidos “como prova factual da história, mas como documentos em constante devir” (LINDEPER, 2005; 151), e que os múltiplos usos e olhares portados sobre eles são sintomas de uma época.

Nossa pesquisa se debruça sobre o filme Seams, realizado em 1993 pelo jovem estudante de cinema Karim Aïnouz. Neste documentário de vinte e nove minutos, o diretor se aproxima da forma do ensaio ao fazer um duplo movimento de reflexão sobre si mesmo e o mundo. O filme tem como fio condutor as desilusões amorosas e o destino de Branca, a avó do diretor, e suas quatro irmãs. Ilka, Inoca, Juju, Deidei e Bambam revelam para a câmera do neto e sobrinho os desenganos, dores e frustrações que marcaram as suas experiências amorosas. Os depoimentos filmados pelo próprio Aïnouz em suas visitas à casa da infância são costurados com diferentes imagens de arquivo, seqüência encenadas e uma narração que com ironia e afeto conduz espectador, propondo uma reflexão sobre lugar das mulheres, do casamento e do machismo na sociedade brasileira.

Neste trabalho nos arriscamos a investigar a origem de algumas imagens de arquivo usadas pelo diretor. Em um primeiro momento o filme deixa-nos a impressão de que os planos foram extraídos de rolos de filmes de família feitos entre os anos 1930 e 1960 no Brasil. No entanto, um olhar mais atento sobre estas imagens “de segunda mão” (BLUMLINGER: 2013) vem acompanhado de um certo estranhamento, pequenos indícios que revelam que algo está fora do lugar. Acreditamos que ao percorrer o curioso movimento migratório das imagens utilizadas em Seams possamos ser capazes de lançar um novo olhar sobre a obra, que nos conduz à valorização do gesto do artista e a uma perspectiva política da imagem.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Walter Benjamin, obras escolhidas volume 1. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996.

BLUMINGER, Christa. Cinéma de seconde main.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Ouvrir les camps, fermer les yeux.

IMBERT, Henri-François Filmer le passé :Les traces et la memoire.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora Unicamp, 2003.

LINDEPERG, Sylvie. La voie des images. Paris: Verdier; 2013

MARCEL, Serge. Les archives fantomes: Recherches anthropologiques sur les institutions de la culture. Paris: Éditions Lignes; 2013

VÉRAY, Laurent. Les images d'archives face à l'histoire.

WEINRICHTER, Antonio. La forma que piensa. Tentativas en torno do cine-ensayo.

Fondo de Publicaciones del Gobierno de Navarra: 2007