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  Título
A Inteligência na Televisão: os Casos de C.S.I. e House
Autor
Renato Luiz Pucci Junior
Resumo Expandido
Esta comunicação faz parte de uma pesquisa cujo objetivo é detectar nuances narrativas e de composição audiovisual na representação da inteligência em meios audiovisuais. Trata-se de uma abordagem da inteligência na ficção seriada de uma mídia a que já foi atribuído o papel de anular o pensamento (ou de “bestializar o país”, segundo uma frase de efeito propagada no Brasil durante os anos 1960), com ecos em estudos mais recentes sobre a televisão, como em Giovanni Sartori. Para realizar o objetivo proposto foi adotada a metodologia de estudo de caso, a ser efetivada por meio de instrumentos de análise audiovisual. A fim de constituir o corpus foram escolhidas duas séries: C.S.I.: Crime Scene Investigation (2000- ) e House M.D. (2004-2012). Em meio à produção televisiva internacional, hegemonicamente marcada pelo apelo ao hiperestímulo e ao que se pode denominar “educação sentimental”, respectivamente concretizadas em ação e melodrama, séries como as escolhidas atuam (ou pretendem atuar) no menos valorizado segmento dos heróis do conhecimento. Na origem dessas séries está a figura do detetive hiper-racional, que, na cena do crime, parte de constatações invisíveis a pessoas comuns, particularmente a policiais, e soluciona cada caso que lhe é proposto. A personificação mais antiga desse personagem é provavelmente Dupin, de “A Carta Roubada” e “Os Crimes da Rua Morgue”, contos de Edgar Alan Poe, e o personagem mais célebre é Sherlock Holmes, de Conan Doyle. A literatura forneceu inúmeros personagens dessa linhagem, assim como aconteceu com o cinema e a televisão, sempre com variantes mais ou menos significativas a distingui-los entre si. Nessas histórias, destaca-se quase sempre a infalibilidade do detentor do poder dedutivo (ou abdutivo, conforme estudo de Umberto Eco sobre Holmes, com base em conceitos de Charles S. Peirce). O foco da comunicação está em duas notáveis variações dessa tradição, ambas em séries de sucesso: a equipe da polícia científica e o médico. Todavia, mais relevante do que a profissão dos protagonistas ou o uso comum de laboratórios para avançar hipóteses e soluções é o tratamento diferenciado concedido às suas funções cognitivas. C.S.I. é talvez a mais bem sucedida reencarnação do protótipo de Poe, seguindo à risca os princípios heurísticos e científicos novecentistas, ou seja, da época em que era de senso comum a ideia de Ciência Clássica e a irrestrita confiança no poder cognitivo da mente. House, por sua vez, apresenta relevantes modificações frente a esse modelo, ainda que estudos tenham caracterizado seu protagonista como apenas mais uma reencarnação de Sherlock Holmes, com a pouco ousada constatação de que seu papel não é identificar criminosos, mas agentes de doenças, isto é, fornecer diagnósticos em casos cuja solução escapa a médicos normais. Em particular, as histórias de House se desviam da tradição devido à presença constante do erro e do aprendizado, aspecto que se confronta com a caracterização geral do detetive infalível, onipresente na maior parte das variações do personagem. De modo mais específico, a pesquisa se volta para representações da inteligência em ato, daqueles momentos em que as narrativas expõem o processo cognitivo, portanto subjetivo, mas que têm no horizonte a intersubjetividade: a pretensão de persuadir outros sujeitos do conhecimento por meio de argumentação lógica e dados empíricos. A pesquisa se relaciona com o debate sobre a qualidade na televisão (por exemplo, em BORGES e REIA-BAPTISTA), uma vez que pressupõe que a representação contínua de atos de inteligência pode também significar alguma aprendizagem para a audiência, mesmo que se trate, como se pretende apontar em uma das séries analisadas, que o aprendizado possa ser absolutamente equivocado, à base de concepções antiquadas e superadas de ciência e inteligência.
Bibliografia

CARNIELLI, Walter A.; EPSTEIN, Richard L. Pensamento crítico: O poder da lógica e da argumentação. 3.ª ed. São Paulo: Rideel, 2011.



ECO, Umberto; SEBEOK, Thomas A. (orgs.). O signo de três: Dupin, Holmes, Peirce. São Paulo: Perspectiva, 1991.



ESQUENAZI, J.-P. (2010). Les séries televisées: l’avenir du cinema? Paris: Armand Colin.

BORGES, Gabriela; REIA-BAPTISTA, Vítor (org.). Discursos e práticas de qualidade na televisão. Lisboa: Livros Horizonte, 2008.



IRWIN, W.; JACOBY, H. House e a filosofia: Todo mundo mente. São Paulo: Madras, 2009.



MITTELL, J. (2012). Complexidade narrativa na televisão americana Contemporânea. MATRIZes, ano 5, n.° 2, jan/jun, São Paulo: ECA/USP, p. 29-52.



SARTORI, Giovanni. Homo videns: Televisão e pós-pensamento. Bauru (SP): EDUSC, 2001.



THOMPSON, K. (2003). Storytelling in film and television. Cambridge e Londres: Harvard University Press.