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  Título
O arquivo como sintoma: anacronismo e sobrevivência das imagens
Autor
Jamer Guterres de Mello
Resumo Expandido
A imagem, em meio ao avanço tecnológico do último século, muda efetivamente nossa relação com o passado e com a história, com as especificidades de nossa época. Em outras palavras, o avanço tecnológico altera o modo de produção e circulação das imagens e com isso muda radicalmente a representação de mundos históricos anteriores.

Nunca fomos tão expostos, cotidianamente e de maneira banal, a uma infinidade de imagens do passado. Há uma coexistência de sinais que pertencem a várias épocas distintas e isso é característico de nosso tempo. Em meio a estas transformações, torna-se importante pensarmos como as imagens são retomadas no audiovisual contemporâneo e em que medida esse tipo de retomada é ao mesmo tempo causa, efeito e sintoma do pensamento que as imagens provocam e de como repercutem no seio dos processos audiovisuais.

Este trabalho busca investigar de que maneira a imagem de arquivo pode ser considerada como sintoma – portadora de uma memória que lhe é particular, dando espaço a uma montagem de tempos heterogêneos e descontínuos – a partir das contribuições de Georges Didi-Huberman, Walter Benjamin e Aby Warburg. Diante de uma imagem antiga, o presente não cessa de se atualizar constantemente, da mesma forma que diante de uma imagem contemporânea o passado não cessa sua reconfiguração, num movimento obsessivo de construção da memória.

Para tanto, fixaremos nossa atenção em “A Saída dos Operários da Fábrica” (1995), filme produzido inteiramente com imagens de arquivo pelo cineasta alemão Harun Farocki. Nesta obra, Farocki retoma a célebre filmagem feita pelos irmãos Lumière em 1895, intitulada “La Sortie de l'usine Lumière à Lyon”, pequeno trecho de 45 segundos que é considerado um dos primeiros filmes da história do cinema. Motivado pela comemoração de 100 anos do cinema, Farocki produz uma montagem com diversas cenas de operários saindo de seus locais de trabalho ao longo do século XX e tenta extrair dessas imagens algumas reflexões sobre a iconografia e a economia da sociedade de trabalho.

Georges Didi-Huberman (2011) tenta demonstrar como o tempo se desdobra na imagem, em suas mais variadas intensidades e durações, trazendo à tona uma espécie de densidade ou matriz do tempo que se expressa na própria imagem. De fato, diante das imagens estamos inevitavelmente diante do tempo e, portanto, as imagens não poderiam ser tomadas como simples objetos, mas antes como campos de forças carregados de tempo complexo e impuro, uma multiplicidade de tempos. O sintoma seria o responsável por fazer aflorar memórias, relações e tensões com as múltiplas temporalidades que se manifestam nas imagens.

Pensar o arquivo como sintoma significa reivindicar sua fertilidade crítica para além dos atributos iconográficos mais evidentes. Há um sintoma que se expressa no arquivo, um mal-estar entre o excesso e a dispersão. O arquivo, na obra de Farocki, indica uma decomposição analítica do tempo, explorando uma descontinuidade que desmonta a história. O sintoma estaria, neste caso, intimamente relacionado ao anacronismo e à sobrevivência das imagens, a um desdobramento de caráter dialético, operando de forma inquietante na historicidade da imagem.

Na obra de Farocki o passado acaba se tornando um reservatório, uma consciência difusa, uma possibilidade de jogar com um conjunto de imagens anacrônicas, apresentando suas próprias constelações, montagens de tempos e espaços que dão a entender mais o presente do que o passado. São constelações que emergem do pensamento que provém das próprias imagens, de suas sobrevivências, de seus sintomas. Poderíamos dizer que trata-se de um cineasta que comenta criticamente o mundo ao agenciar estética e politicamente as mais variadas séries de imagens de arquivo as quais manipula. Produz crônicas sobre o mundo político através das imagens, sobretudo porque o arquivo lhe serve de ferramenta privilegiada para agenciar o pensamento através do cinema.

Bibliografia

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