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  Título
Corpos, paisagens e afetos: bpms no cinema brasileiro contemporâneo
Autor
Erly Milton Vieira Junior
Resumo Expandido
Verifica-se, nos últimos anos, no cinema brasileiro de curta e longa metragem, a emergência de um conjunto de narrativas bastante distintas entre si em suas linguagens ainda que, cada qual, a seu modo, busque um diálogo cosmopolita com várias vertentes do cinema mundial contemporâneo. Tais filmes, produzidos em diversas partes do país por jovens realizadores, lançam olhares renovados ao espaço-tempo cotidiano dos grandes centros urbanos, a partir de propostas estéticas que vão de um realismo de caráter mais sensorial a experiências mais radicais no campo da mise-en-scène desnaturalizada.

Destacam-se aqui as formas como os complexos desenhos sonoros desses filmes contribuem intensamente para que tais propostas estéticas reverberem fortemente junto ao espectador. Aqui, eles colaboram diretamente no processo imersivo, modificando nossa percepção temporal e espacial dos ambientes sonoros – que passam a ser primordiais para que apreendamos sensorialmente o conjunto de entendimentos tácitos que mediam a relação entre os personagens retratados e os universos diegéticos aos quais pertencem. Daí pensarmos num trânsito sensorial/afetivo aqui instaurado, entre espectador, corpos filmados e paisagens sonoras (segundo os conceitos de Rodriguez, Chion e Schafer), de modo a trabalharmos essas categorias com base numa bibliografia que parta de uma leitura sensorial da experiência espectatorial (como Barker, Elsaesser e Shaviro).

Em especial, destaco nos filmes a serem aqui analisados, a apropriação do repertório da música eletrônica (em suas mais diversas modalidades como um elemento primordial nesse conjunto de trocas simbólicas e afetivas. Se o uso de um cancioneiro popular no cinema, seja diegeticamente ou como elemento de trilha sonora, já pressupõe um diálogo entre o significado prévio que tais composições carregam junto ao aos vínculos emocionais que regem o repertório simbólico dos espectadores (também eles consumidores de música pop), fazendo com que as paisagens afetivas (LOPES, 2007; APPADURAI, 2004) dessas canções interajam com o contexto de cada filme, cabe lembrar que, no caso da música eletrônica, com suas dinâmicas próprias e seus timbres sintetizados, as possibilidades de diálogo com as experiências sensoriais propostas pelos filmes podem ser bem mais férteis, por interferirem também de forma diferenciada na paisagem sonora dos mesmos.

Daí pensarmos, neste trabalho, em investigar as diversas possibilidades pelas quais esses filmes estabelecem, em seus regimes sensoriais e perceptivos diferenciados, tais trânsitos a partir dos bpms (batidas por minuto) da e-music. Por exemplo, pela inesperada ligação “sonora” que se estabelece entre o protagonista surdo-mudo de “A onda traz, o vento leva”, do pernambucano Gabriel Mascaro e o mundo exterior, a partir das vibrações emitidas pelas caixas de som que ele conserta em sua oficina. Ou ainda, as apropriações das paisagens assumidamente robóticas e hipnóticas do eletroclash de músicos como Vitalic e Para One, em “Charizard”, do cearense Leonardo Mouramateus, cuja narrativa desnaturalizada calca-se numa locução propositalmente monocórdica e numa mise-en-scène coreográfica e totalmente artificialista. Também podemos incluir aqui todo um jogo irônico que Anita Rocha da Silveira faz, em seu “Os mortos-vivos”, ao se apropriar doe hits radiofônicos massivos para traduzir o complexo jogo simbólico entre a realidade e as mediações eletrônicas que regem o universo “instagramatizado” e altamente midiatizado de adolescentes da classe média-alta carioca. E, por fim, temos “Verona”, de Marcelo Caetano, um filme com ecos de Renoir, ambientado no interior de São Paulo, que tem como um de seus protagonistas um produtor musical. Aqui, não só há a presença da música eletrônica como trilha sonora cotidiana dos diversos encontros dos personagens, mas também o sampleamento de sons desse mesmo cotidiano pelo personagem em suas composições, num instigante diálogo entre sons diegéticos e não-diegéticos.

Bibliografia

APPADURAI, Arjun. Dimensões culturais da globalização. Lisboa: Teorema, 2004.

BARKER, Jennifer. The Tactile Eye: Touch and the cinematic experience. Berkerley: University of California Press, 2009

BREWSTER, Bill & BROUGHTON, Frank. Last night a DJ saved my life. London: Headline, 2006.

CHION, Michel. La audiovisión. Barcelona: Paidós, 1993

ELSAESSER, THOMAS e HAGENER, Malte. Film Theory: An introduction through the senses. New York/London: Routhledge, 2010.

IKEDA, Marcelo e LIMA, Dellani (org.). Cinema de Garagem. RIo de Janeiro, Wset, 2012.

LOPES, Denilson. A delicadeza: Estética, experiência e paisagens. Brasília: UnB/Finatec, 2007

RODRIGUEZ, Angel. A dimensão sonora da linguagem audiovisual. SP: Senac, 2006.

REYNOLDS, Simon. Energy Flash: A journey through rave music and dance culture. London: Faber and Faber, 2013.

SCHAFER. Murray. A afinação do mundo. SP: Unesp, 2001.

SHAVIRO, Steven. The cinematic body. University of Minnesota, 1993