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  Título
O horror não está no horror: a matéria histórica resiste ao gênero
Autor
Kim Wilheim Doria
Resumo Expandido
Em “O invasor”, a narrativa do thriller é sabotada pela ruptura com a convenção operada pela figura do matador, tanto no nível dramático-narrativo quanto no da representação: o personagem coadjuvante de um assassino contratado que busca o protagonismo (convenção do gênero), o periférico que busca ocupar o centro (convenção social). Por sua vez, “Trabalhar cansa” representa a dinâmica do mundo do trabalho contemporâneo em uma narrativa que oscila fluidamente entre gêneros (terror, drama social, comédia de costumes etc.), como em um jogo cujas regras são constantemente redefinidas (própria à resiliência do capitalismo contemporâneo e de processos seletivos lúdicos, como aqueles representados na obra). Esta resistência da matéria histórica às convenções do gênero é sugestiva para se pensar a dinâmica social do período que separa a realização das obras (os "Anos Lula"), assim como o encontro da experiência brasileira com o capitalismo tardio.

Uma análise dos filmes que parte da forma com que se relacionam com os gêneros cinematográficos, articulando horror e violência com mal estar e cotidiano, parece frutífera para se pensar a ficção contemporânea e a experimentação audiovisual. Em especial cabe ressaltar a persistência de elementos brechtianos nas obras (presentes de maneira intuitiva em “O invasor” e assumida em “Trabalhar cansa”), posto que Brecht nutria especial interesse em trabalhar experimentações formais a partir de gêneros da indústria cultural como procedimento privilegiado de representação das “novas coisas ruins” de nosso tempo.

A partir da análise fílmica, percebe-se uma formulação de uma nova configuração para a dinâmica da luta de classes: da explicitação em “O invasor” ao recalque em “Trabalhar cansa”, temos personagens pobres que não procuram justiça social ou a tomada do poder (como outrora no imaginário cinematográfico brasileiro), mas a ascensão social e inclusão no universo de consumo e de trabalho. Esses projetos individuais (não coletivos) de aburguesamento parecem responder a um cenário histórico, estruturado por um sistema midiático global, em que a existência se apresenta simbolicamente articulada à possibilidade de consumir, oprimir (“O invasor”) e ser oprimido (“Trabalhar cansa”). Se em “O invasor” o matador quer poder mandar, em “Trabalhar cansa” os personagens precisam poder trabalhar. A aporia, que ganha contornos desesperados e paranoicos em “O invasor”, torna-se assustadoramente ordinária em “Trabalhar cansa”.

A década que separa os dois filmes (2002-2011) foi marcada por um momento determinante na história do Brasil: a eleição (e reeleição) do presidente Luís Inácio Lula da Silva, passagem que parece sintetizar um processo iniciado no período de distensão política da Ditadura Militar (posteriormente “abertura”), com a consolidação da hegemonia lulista (inclusão social via consumo, atenuação dos conflitos sociais, desmobilização política, “paz e amor” etc.) e o encontro do país com o mercado global, no qual o capitalismo tardio dos “novos tempos” incorpora o “jeitinho brasileiro” em sua dinâmica estrutural. Se entendermos a história recente do Brasil como a da periferia do capital tornada centro motor (“olho do furacão”), a análise dos filmes permite lançar luz sobre uma dinâmica que é ao mesmo tempo local e global. Os filmes buscam narrar histórias “universais”, mas têm seus projetos dramatúrgicos contaminados pela resistência da matéria histórica a se adequar às convenções do gênero cinematográfico. É a dinâmica específica das obras, elaborada sobre a tensão entre forma simbólica (global) e experiência brasileira, que produz um senso de “universalidade material” no qual narrar o Brasil é narrar o “estado de coisas” atual.
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