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  Título
Os discursos colonialistas e pós-colonialistas nos filmes de zumbis
Autor
Paula Gomes
Resumo Expandido
A figura do zumbi nasce no folclore haitiano, que o define como um indivíduo que foi ressuscitado por meio de feitiços e poções, para servir a algum mestre. A absorção do mito caribenho do zumbi pelos Estados Unidos ocorre durante a sua ocupação do Haiti (1915-1934), período em que são lançados vários livros sensacionalistas de exploradores norte-americanos que relatavam suas experiências de viagem no Haiti, como o famoso livro de William Seabrook, The Magic Island(1929).

A representação do zumbi caribenho atinge os cinemas norte-americanos na década de 1930, com filmes como Zumbi Branco,(Victor Halperin, 1932) obra que retratava o ponto de vista do estrangeiro sobre o Haiti, o norte-americano que explora este terreno sob uma perspectiva de imersão corporal, que é elevada à última instância pela transformação de personagens femininas norte-americanas em zumbis. A ameaça da transformação destas personagens em zumbis causava terror nos expectadores não somente por representar o medo norte-americano da miscigenação racial, como também por mostrar espaço caribenho como um território numinoso, capaz de “contaminar” os norte-americanos.Ao final deste processo, observamos que o consumo discursivo da cultura caribenha terminou por ressignificar o mito do zumbi, que passou de um elemento do folclore haitiano para a personificação do primitivismo do Haiti, uma espécie de garoto propaganda da tentativa de produzir um imaginário exótico e selvagem do Haiti por estes exploradores e diretores.

A partir da década de 1960, os zumbis passariam a ser representados no cinema norte-americano como mortos-vivos que se alimentam de carne humana, totalmente desvinculados de sua herança caribenha. Este movimento tem início com o lançamento do filme A Noite dos Mortos-Vivos (1968) de George Romero, que apresentava o início de uma epidemia de zumbis em uma região dos Estados Unidos em uma trama alegórica que criticava vários aspectos da sociedade norte-americana do período.

No entanto, em 2011 é lançado Juan de los Muertos (Alejandro Brugués, 2011), uma coprodução entre a Espanha e Cuba que oferece uma significativa reflexão pós-colonialista em relação a história do Caribe, e de Cuba. O filme parece incorporar em sua narrativa um embate entre dois discursos políticos polarizados: a defesa da perpetuação do regime socialista contra uma invasão política e cultural estrangeira –notadamente norte-americana - a defesa do fim do socialismo em Cuba e a sua abertura política e cultural. Esta estratégia parece querer revelar as contradições destes dois argumentos, sugerindo um terceiro percurso para o país, a partir de uma restauração da fé do caribenho em seu país, e do resgate de seu ímpeto sobrevivencialista. Desta maneira, o filme parece oferecer uma inversão irônica e pós colonialista da apropriação do mito caribenho do zumbi pela indústria do entretenimento norte-americana na medida em que reapopria-se dos zumbis canibalistas norte-americanos para criticar os Estados Unidos. No entanto, este processo de retorno do zumbi ao solo caribenho é bastante complexo na medida em que vem acompanhado de um discurso autoconsciente, problematizando e discutindo suas questões internas. Desta forma, Juan de los Muertos parece unir as duas principais linhas de força espaciais que pautaram o gênero: as ansiedades em relação ao espaço estrangeiro, e a reflexão crítica em relação ao seu próprio espaço interno.

Bibliografia

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