/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O minimalismo nos filmes estruturais norte-americanos
Autor
Theo Costa Duarte
Resumo Expandido
A pesquisa a ser apresentada faz parte de uma investigação mais ampla a respeito da aproximação entre os parâmetros das artes plásticas e dos cinemas experimentais em distintos lugares ao fim dos anos 1960. Nesta comunicação buscarei discutir algumas das apropriações, reinvenções e diálogos realizados por determinados cineastas experimentais radicados em Nova York no período com a arte minimalista surgida na mesma década.

Entre 1965 e 1969 surge nos filmes de Michael Snow, Hollis Frampton, George Landow, Paul Sharits, Ernie Gehr e outros uma nova tendência cinematográfica experimental, logo denominada como “filme estrutural” (Sitney, 1969), antitética em diversos pontos em relação ao cinema underground que o antecedia. A tradição do “cinema visionário”, nos termos de Sitney (2002), era constituída então por obras poéticas, de forte caráter subjetivo e imaginativo, nas quais o material fílmico e os artifícios formais tinham usos eminentemente metafóricos e associativos. Os filmes desta tendência seriam compostos de elementos heterogêneos, sem uma arquitetura imediatamente descritível, apesar de conciliados em uma unidade pelo desígnio imaginativo do autor.

Em contraste, os filmes estruturais evitariam as determinações da subjetividade e intuição dos autores, possuindo configurações gerais predeterminadas e impessoais, estabelecidas antes da filmagem e da edição. Estas configurações – impressões primeiras destes filmes – seriam criadas a partir de sistemas ou fórmulas, reforçando em geral a simetria das formas, a repetição de unidades idênticas ou quase idênticas e a inteireza da obra. Deste modo, chamariam a atenção para as formas em sua literalidade, para os recursos do meio e para o próprio material fílmico.

Estas características apontadas guardam grande semelhança com propriedades fundamentais da arte minimalista praticada nos anos 1960. Um artista como Robert Morris, por exemplo, defenderia em suas “Notes on Sculpture” (1968) o uso de “sistemas ‘a priori’” claros, racionais e impessoais para definir a estrutura de todo o trabalho assim como salientaria o valor da integridade e indivisibilidade por meio de formas unitárias. De modo geral, os artistas associados ao minimalismo buscariam tornar a unidade de seus trabalhos palpável, enfatizando também o que consideravam como a materialidade dos elementos utilizados. Diversas outras semelhanças poderiam ser apontadas, como a repetição de unidades idênticas e a simplificação dos conteúdos.

A princípio, esta proximidade se explicaria pelos fortes laços que estes cineastas tinham com os demais campos artísticos, tendo alguns deles – como Michael Snow, Tony Conrad e Hollis Frampton – trabalhado com outros meios antes de realizarem seus primeiros filmes estruturais. Também pode-se apontar para o natural intercâmbio entre os artistas visuais que então atuavam na mesma cidade (Nova York) e compartilhavam alguns dos mesmos espaços de interlocução em galerias e revistas (principalmente a Artforum, que acolheu ambos os “movimentos”).

Assim, em contraponto aos esforços de alguns autores (Sitney 1969, 2002; Michelson, 1971) em situar os filmes estruturais em uma continuação do “cinema visionário” e demais tradições do cinema experimental, temos como hipótese que o minimalismo teve papel preponderante na definição e ordenamento dos parâmetros pelos quais se constituiriam os filmes estruturais. Por esta razão seria de interesse analisar estes filmes também a partir de conceitos e perspectivas caras às demais artes visuais e que serviram para melhor compreensão da chamada arte minimalista. Sem perder de vista as especificidades do meio, pretende-se apresentar nesta comunicação de forma mais aprofundada os modos como estes filmes apropriariam, reinventariam e, eventualmente, rejeitariam os parâmetros de um “movimento” de outro campo artístico. Nossa atenção voltar-se-ia deste modo às suas organizações formais, nos possíveis significados de suas operações e no modo como estas se efetivam.

Bibliografia

BATCHELOR, D. Minimalismo. São Paulo: Cosac Naify, 1999.

BATTCOCK, G. (org.) Minimal Art: A critical anthology. Nova York: E.P. Dutton, 1968.

COLPITT, F. Minimal Art. Seattle: University of Washington Press, 1993

ELDER, B. “The Structural film: Ruptures and continuities in avant-garde art”. In: HOPKINS, D. (org.) Neo Avant-garde. Nova York: Rodopi, 2006.

FOSTER, H. O retorno do real. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

JAMES, D. Allegories of cinema: American film in the sixties. Princeton: Princeton University Press, 1989.

MICHELSON, A. “Toward Snow,” Artforum 9, no. 10, Junho 1971. p. 30-37.

MORRIS, R. “Notes on sculpture”. In: BATTCOCK, G. (org.) Minimal Art: A Critical Anthology. Nova York: E.P. Dutton, 1968.

NOGUEZ, D. Une renaissance du cinema: Le cinéma “underground” américain. Paris: Klincksiek, 1985.

SITNEY, P. A. “Structural film”. Film Culture, Nova York, no. 47, 1969. p. 1-10.

SITNEY, P. A. Visionary film: The american avant-garde. Nova York, Oxford University Press, 2002.