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  Título
O figural nos filmes de Philippe Grandrieux
Autor
Lucas de Castro Murari
Resumo Expandido


O meio artístico no século XX foi atravessado por inúmeras transformações. O conceito de imagem foi desdobrado, de forma prática e teórica. Um dos principais questionamentos nessas duas esferas de criação foi quanto ao âmbito da representação. No campo da arte, os novos sistemas e signos criados procuraram outros estilos de expressão, onde o domínio da mimese e a retórica são problematizados. O pensamento, em especial a filosofia, também foi contra padrões e modelos universais. Nessa perspectiva os objetivos de análise não buscam meras interpretações, significados ou significantes que se atém a semelhanças e identidades.

Um termo chave nesse contexto é o figural, que foi abordado de diversas maneiras. Em Discourse, Figure (1971), Jean-François Lyotard busca ir além do regime da representação e do narrativo com esse conceito, possibilitando outros modos de entendimento do uso do discurso e das figuras. Esse tipo de classificação desenvolvido por ele a partir de questões da pintura do século XX, mais precisamente sobre a obra abstrata de Barnet Newman, é retomado por Gilles Deleuze em seu livro Francis Bacon: lógica da sensação (1981). Para ambos, o figurativo se opõe ao figural, ou seja, esse é uma forma sensível remetida a sensação que não se encontra na esfera realista ou da apreensão racional. Esses dois filósofos criticaram o figurativo, isto é, imagens que enveredam pela narrativa e ilustração.

O conceito de imagem figural é estendido por outros teóricos, de outros meios, inclusive no audiovisual. Autores como Jean-Michel Durafour, Philippe Dubois, David Rodowick, Luc Vancheri, Nicole Brenez e Adrian Martin desenvolveram essa noção. Nos filmes analisados por eles, as imagens recorrem a plasticidades e texturas expressivas. O figural reconfigura os modelos tradicionais de encenação, predominantemente baseados no textocentrismo e na linguagem comunicacional. Essa autonomia estética possibilita experimentações formais ligadas ao regime da sensação. O espaço háptico sobrepõe o espaço óptico. A função da imagem figural está relacionada as forças e intensidades pertencentes a ordem do sensível.

Um exemplo de realizador cinematográfico em que as imagens se relacionam com essa medida figural é Philippe Grandrieux. Seus filmes de ficção - Sombra (Sombre, 1998), A Vida Nova (La Vie Nouvelle, 2002), Um Lago (Un Lac, 2008) e White Epilepsy (2002) – exploraram esse viés. A criatividade de suas imagens se relacionam com o cinema de gênero, no caso, o horror. Esse diálogo marca sua filmografia, contudo, ele transcende os códigos habituais. O modus operandi das imagens de Grandrieux estão atreladas a imersão, influindo pela abjeção e experiência.

As inventividades apresentadas nas obras desse realizador francês libertam o cinema do enredo, possibilitando outras tipologias de expressão para o meio. Sua estética é radical, e está próxima de procedimentos pictóricos e o circuito das artes plásticas. O figural, aqui, implica na pesquisa formal de propriedades da natureza da imagem, rumo a abstração. As modificações visuais e as deformações corpóreas no cinema de Grandrieux se relacionam com forças e intensidades, onde o movimento tem papel fundamental como estética. Essas estratégias apresentam outra lógica de criação, porém, ainda amparado pelo papel diegético. Seu estilo de encenação privilegia o artifício, a imagem se aproxima da “atmosfera plástica” (Inês Gil) como matéria.

O objetivo é analisar como o figural está presente nas obras de Philippe Grandrieux. A comunicação irá se concentrar no estudo da encenação do realizador, mais precisamente como ele utiliza a imagem a partir da sua potencialidade plástica em função da sensação. Particularidades técnicas e estéticas serão ressaltadas como elementos artísticos expressivos.



Bibliografia

BEUGNET, M. Cinema and sensation. French Film and The Art of Trasngression. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2007.



BRENEZ, N. De la figure en général et du corps en particulier. L’invention figurative au cinéma. Brussels: De Boeck, 1998.



DELEUZE, G. Francis Bacon: lógica da sensação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.



DURAFOUR, J. M. Jean-François Lyotard: questions au cinéma. Paris: Presses Universitaires de France, 2009.



GIL, I. A atmosfera no cinema: o caso de A sobra do caçador de Charles Laughton entre onirismo e realismo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.



LYOTARD, J. F. Discurso, figura. Barcelona: Gustavo Gili, 1979.



MARTIN, A. Last day every day: figural thinking from Auerbach and Krakauer to Agamben and Brenez. New York: Punctum Books, 2012.



RODOWICK, D. N. Reading the Figural, or, Philosophy after the New Media, Durham, Duke University Press, 2001.



VANCHERI, L. Les pensées figurales de l’image , Paris, Armand Colin, 2011.