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  Título
A (re)construção cinematográfica da História em Amistad (1997)
Autor
Fabio Luciano Francener Pinheiro
Resumo Expandido
Cinema e História mantém um forte vínculo, que já se manifesta desde que as primeiras imagens em movimento surgem de forma experimental em vários países da Europa ao final do século XIX. Produtores e cineastas se serviram de eventos históricos para compor seus enredos e conquistar o público. O cineasta David Griffith defendia que os filmes poderiam substituir os livros de história, fornecendo acesso direto aos acontecimentos do passado, que sempre foi visto como uma fonte preciosa de dramas humanos para Hollywood. Um produtor em especial, Darryl Zanuck, prosperava na década de 1930 aplicando fórmulas e esquemas dramáticos a personagens famosos na história. Zanuck acreditava que as cinebiografias deveriam ser histórias de grandes homens que enfrentam a miopia e a hostilidade das sociedades de sua época e que lutam por grandes causas (SMYTH: 2006). Se até bem pouco tempo esta relação era limitada a comparações em torno da veracidade dos filmes perante os livros, a abordagem pioneira de Marc Ferro (1975) no espírito inovador da Escola dos Annales, trouxe um novo encaminhamento para este debate. Os filmes, sustenta Ferro, podem ser lidos e interpretados como fontes históricas tão relevantes quanto os livros impressos. Desde Ferro, uma rica metodologia foi criada e aperfeiçoada, passando por teóricos e pesquisadores como Sorlin (1980), Rosenstone(1998), Elsaesser (1996) White (1995) e Baecque(2008), Morettin (2013), Xavier(1999, 2003), Nóvoa (2009) e Kornis (2008) . Em comum, percebe-se nestas obras a leitura das formas fílmicas e suas conexões com a sociedade que ampara e legitima a circulação dos filmes.

O filme Amistad (1997), de Steven Spieilberg, é exemplar desta relação. Cineasta interessado versões cinematográficas do passado, sobretudo relacionadas ao Holocausto, Escravidão e Segunda Guerra Mundial, Spielberg trata de um episódio histórico pouco conhecido na sociedade americana. Em 1838, um navio negreiro chega ao litoral dos Estados Unidos, após uma revolta de escravos capturados em Serra Leoa. Durante a viagem, eles se rebelam e assumem o comando do navio. Ao atracar, a tripulação é capturada e presa, gerando uma intensa disputa jurídica, comercial e ética entre abolicionistas, comerciantes de escravos e governos dos Estados Unidos e Espanha. A época de seu lançamento, pouco depois da repercussão em torno do filme anterior do cineasta, A Lista de Schindler (1993), o filme motivou debates sobre o outro Holocausto, o dos negros africanos, menos divulgado que o judeu.

O filme se desenvolve seguindo os códigos da narrativa clássica centrado um herói, o líder escravo Cinque (Bordwell, Staiger e Thompson,1985). Publicações de Black Studies e historiadores se pronunciaram, contra e a favor do encaminhamento melodramático que Spielberg imprimiu aos fatos históricos.

Para ilustrar a articulação entre Cinema e História e expor esta escrita fílmica do passado, destacamos a construção cinematográfica do acontecimento, com ênfase nos mecanismos imagéticos e sonoros de que dispõe o cinema. Após uma síntese da recepção crítica do filme, apresentamos a análise fílmica de uma sequência do filme, na qual Cinque relembra aos jurados do Tribunal como foi capturado em sua terra natal. De grande força dramática, o trecho traz indicações preciosas de como o cinema-espetáculo incorpora a abordagem melodramática ao buscar a representação do passado e expor a memória do sofrimento coletivo.

O contato com o material fílmico é mediado recorrendo à descrição plano a plano do trecho, conforme metodologia empregada pela crítica francesa contemporânea em Vanoye e Goliot-Lété (1994), Aumont e Marie (2009) e Jullier e Marie (2009). Por se tratar de um relato oral inserido no universo diegético, buscamos, a partir do trecho, refletir sobre o conceito de focalização, conforme articulado por Gaudreault e Jost (2009) – fundamental para uma compreensão da noção de narrador do evento histórico, tão importante para historiadores quanto para cineastas.

Bibliografia

AUMONT Jacques, MARIE, Michel. A análise do filme. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2009.

BAECQUE, Antoine. L’Histoire-caméra. Paris, Gallimard, 2008.

CAPELATO, M. H. e outros (orgs.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. 2ª ed. SP, Alameda Casa Editorial, 2011.

JULLIER, Laurent, MARIE, Michel. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Editora Senac, 2009.

KORNIS, Monica A. Cinema, Televisão e História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

NÓVOA, J. e outros. Cinematógrafo – um olhar sobre a história. Salvador: EDUFBA, São Paulo: Editora da Unesp, 2009.

MORETTIN, E. Humberto Mauro, Cinema, História. São Paulo: Alameda Editorial, 2013.

ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes – os filmes na história. São Paulo: Paz e Terra: 2010.

VANOYE, Francis, GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena - Melodrama, Hollywood, Cinema Novo e Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.