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  Título
QUEBRANTO: UMA ESTÉTICA DO TRAVESTISMO
Autor
RITA DE CASSIA MIRANDA DIOGO
Resumo Expandido
Ganhadora do Prêmio Maguey 2013, no último Festival de Cinema de Guadalajara, Quebranto (2013) é um documentário de Roberto Fiesco, que gira em torno das memórias e do testemunho de Fernando García, conhecido na década de 70 como “Pinolito”, um famoso ator infantil do cinema mexicano, e de sua mãe, Lilia Ortega, também atriz. Já adulto, Fernando decide travestir-se na figura feminina de “Coral Bonelli”, quando então passa a sofrer diferentes tipos de discriminação, tanto por parte da comunidade onde vive quanto por parte da família.

Partindo-se da noção de “espetáculo” (COMOLLI, 2010), espaço saturado de imagens, luzes, sons e informações, pretendemos ler este filme baseando-nos no que chamamos de “estética do travestismo”, na qual predominam o “fora de campo”, o “não visível”, a “imagem lacunar”, que situam esta obra de Fiesco entre a ficção e o documentário, a imaginação e a realidade, a memória e o esquecimento.

A abordagem de gênero que vemos neste filme de Fiesco, assim como em outros trabalhos seus, vai além da temática e se “traveste” (SARDUY, 1987) esteticamente em imagens, tempos e espaços, que se apresentam deslocados, criando fissuras, ou ainda na termonologia benjaminiana, dobras (2008), abrindo caminhos para diferentes leituras, que não se permitem esgotar.

Assim sendo, entre Fernando García/Coral Bonelli estabelece-se um jogo de diferenças e similitudes, que constrói uma figura alegórica (BENJAMIN, 1984) plena de significados, onde predominam o heterogêneo, a pluralidade e a diferença contra o discurso homogêneo, fechado e estereotipado dos fundamentalismos recentes.

Por outro lado, interessa-nos demonstrar a alegoria construída em torno da personagem Coral Bonelli, a qual como vimos, resulta numa estética deslocada, travestida, como reflexo da realidade latino-americana, cujo atraso econômico acabará estabelecendo uma defasagem, que muitas vezes nos parece insuperável, entre modernidade periférica e cinema, resultando em histórias cinematográficas baseadas na ruptura e na descontinuidade. Mais uma vez, o conceito de história benjaminiano (1985) nos servirá de suporte, pois nos ajudará a ler o filme de Fiesco, bem como o cinema mexicano que o mesmo tematiza, a partir das noções de fragmentação e ruína.



Palavras-chave: América Latina; cinema; alegoria; travestismo; história.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco. Trad. Apres. e Notas de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

____. Obras escolhidas. Magia e Técnica, Arte e Política. Trad. De Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. A tarefa do tradutor. Trad. de Karlheinz Barck. In: Cadernos do Mestrado/Literatura, Ed. 2, Instituto de Letras/UERJ, 1994.

Comolli, Jean-Louis. Cine contra espectáculo seguido de Técnica e ideología. (H. Pons, Trad.). Buenos Aires: Manantial, 2010.

SARDUY, Severo. Ensayos Generales sobre el Barroco. Argentina: FCE, 1987.