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  Título
A OBRA DE LEOS CARAX COMO CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA
Autor
Carolina Soares Pires
Resumo Expandido
Leos Carax, o enfant terrible do cinema francês, iniciou-se precocemente no cinema, ainda adolescente, como crítico da revista Cahiers du cinéma, tendo terminado seu primeiro longa-metragem aos 24 anos. Suas diversas referências intertextuais e a apropriação da cultura pop levaram muitos críticos a enquadrá-lo no chamado cinéma du look, caracterizado pela prioridade da imagem em relação ao conteúdo. Muitas vezes utilizado depreciativamente, o termo é, com frequência, associado ao nome de Leos Carax.

É o objetivo principal deste trabalho destacar Leos Carax da circunscrição do cinéma du look, sustentando a hipótese de que ele tem um estilo autoral singular e que, ao utilizar-se de referências, mistura de gêneros e da herança de outros cinemas - especialmente a nouvelle vague - cria novas relações e constrói uma obra que é, em todos os sentidos, original, reconhecendo-o como um criador pertencente a uma tradição de ficção científica, não apenas no que concerne às características mais superficiais do gênero, mas naquilo que está profunda e intrinsecamente ligado ao que define a ficção científica como instrumento de reflexão e questionamento existencial.

Carax criou uma mitologia própria, um mundo que não é seu mundo empírico, mas o “mundo de Carax”, o qual funciona de acordo com regras internas, numa lógica diegética que se expande como que gerando um universo paralelo, submetido às regras do diretor. Um elemento central desse “mundo caraxiano” é a personagem Alex (sempre interpretado por Denis Lavant), alter-ego do diretor, o qual se coloca em seu mundo diegético como criador e como criatura. Essa relação resulta num curioso paradoxo, em que Carax, a um só tempo, preside as regras de seu cosmos particular, e está sujeito a elas, na figura de seu avatar intra-diegético. Um vez que nesse mundo reinam o caos e a sorte, estabelece-se o jogo de Carax: a um só tempo, ele cria o caos e tenta escapar dele.

A ficção científica apresenta-se como uma interface fecunda da obra de Leos Carax. Para cumprir o propósito de adotá-la como via de acesso ao mundo caraxiano, é preciso primeiro definir o conceito de ficção científica que orienta a análise. Os conceitos e definições de ficção científica são quase tão numerosos quanto o são os teóricos que abordam o assunto. Dessa forma, os elementos que caracterizam o gênero e as obras que ele abrange variam muito de acordo com a definição com a qual se trabalha. Atende aos fins desta abordagem da criação cinematográfica de Carax a definição de Darko Suvin (1972; 1979), caracterizada pela presença do novum e do estranhamento combinado à lógica cognitiva , assim como o conceito de “estranhamento anamórfico” de Matthew Beaumont (2009), numa análise guiada pela proposta de Rick Altman (1984) de abordagem semântica/sintática do gênero fílmico. Para Altman (1984), um gênero pode ser caracterizado de duas maneiras: pelos elementos semânticos identificáveis que constituem um gênero (na ficção científica: robôs, naves espaciais, raios laser etc.), ou pela sintaxe que se estabelece na narrativa, ou seja, as relações que estão em jogo na construção do plot.

Identificar a sintaxe na ficção científica faz-se um tanto mais complicado do que em outros gêneros, uma vez que o plot de grande parte dos filmes que apresentam os elementos semânticos do gênero é herdado de outros gêneros. O caminho escolhido aqui é relacionar a sintaxe do filme de ficção científica com a definição de Suvin (1972), ou seja, com a presença do estranhamento cognitivo e do novum. Nesse caso, o que interessa não é tanto a relação entre as personagens ou os acontecimentos da narrativa e, sim, a relação que a narrativa estabelece com o espectador, um jogo, uma relação triangular espectador-realidade alternativa-realidade empírica. O que vai de fato definir a ficção científica é a forma como essa realidade alternativa relaciona-se com a realidade empírica do espectador e interfere na perspectiva deste sobre ela.
Bibliografia

ALTMAN, Robert. A Semantic/Syntactic Approach to Film Genre. Cinema Journal, Vol. 23, No. 3 (Spring, 1984).

BEAUMONT, Matthew. The Anamorphic Estrangements of Science Fiction, in Mark Bould & China Miéville (eds.), Red Planets: Marxism and Science Fiction. Middletown: Wesleyan, 2009, pp. 29-46.

CLARESON, Thomas D; et al. SF: the Other Side of Realism:Essays on Modern Fantasy and Science Fiction. Bowling Green: Bowling Green State University Popular Press, 1971.

PICHON, Alban. Le cinema de Leos Carax: L’experience du déjà-vu. Lormont: Le Bord de l’eau editions, 2009.

POWRIE, Phil. French Cinema in the 1980s: Nostalgia and the Crisis of Masculinity. Oxford: Clarendon Press, 1997.

RANCIERE, Jacques. “Sentence, Image, History” in The Future of the Image. London: Verso, 2009, p. 33.

SUVIN, Darko. Metamorphoses o f Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven: Yale University Press, 1979.

________. “On the Poetics of the Science Fiction Genre”, College English