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  Título
Nymphomaniac: sobre digressões e erotismo
Autor
Patrícia Kruger
Resumo Expandido
A reapropriação de gêneros cinematográficos configura-se como um dos aspectos essenciais da obra de Lars von Trier. É por meio desse processo que o cineasta dispõe-se a interrogar a tradição cinematográfica e a explorar os limites e alcances de formas consagradas, extraindo desse movimento consequências estéticas e políticas. Neste caminho, o tratamento dedicado a seu mais recente filme, Nymphomaniac (2013), não poderia ter sido diferente, sendo sua classificação genérica, portanto, elemento norteador de muitas das discussões que o filme provoca.

A primeira referência à classificação genérica de Nymphomaniac deu-se na coletiva de Melancholia (2011), em Cannes. Nesta ocasião, Trier afirma que está trabalhando em seu próximo filme, que seria um “pornográfico” (porn) de longa duração. Contudo, na ficha técnica do filme, Nymphomaniac é caracterizado como “digressionista”, em consonância às informações de um comunicado à imprensa sobre sua abordagem publicitária: “cada teaser é definido por um título, um fotograma e uma pequena narrativa que, de forma lúdica, revela o universo multifacetado de Nymphomaniac, filme com o qual Lars von Trier quer apresentar um novo gênero de filme – o digressionismo”. Vale ressaltar que o enquadramento genérico do filme torna-se ainda mais complexo quando o atributo de filme “erótico” também começa a ser conferido ao filme.

Ao abordarmos o filme partindo dos gêneros cinematográficos a que o filme se relaciona, ou mesmo “inaugura”, devemos atentar ao fato de que esta discussão não se limita apenas ao texto fílmico. O “inconsciente genérico” (LANGFORD, 2005, p. 274) que persiste em tal texto estende-se, aqui, a outros domínios, como as estratégias de marketing e distribuição e as relações estabelecidas com a audiência e com a crítica, a quem o gênero “digressionista” do filme inclina-se de maneira notável. Neste aspecto, vale notar que a construção narrativa do filme é amparada por duas linhas argumentativas: o relato erótico de Joe (Charlotte Gainsbourg) e os encaminhamentos que tal relato recebem de seu interlocutor, Seligman (Stellan Skarsgård), direcionamentos estes que estruturam a forma e o conteúdo das memórias de Joe e, portanto, do próprio filme. Assim, para além da função diegética de crítico que Seligman possui frente ao relatado, ele também tem importante papel alegórico como aquilo que é somado e comentado a cada novo filme de gênero em relação a seu predecessores genéricos (LANGFORD, 2004, 273) – neste caso, os filmes eróticos.

Quanto à estratégia de divulgação de Nymphomaniac, feita por meio do lançamento de teasers de capítulos do filme e também por pôsteres com atores simulando expressões orgásticas, há uma reconfiguração importante da abrangência do texto fílmico: a função estética e cognitiva do cinema apoia-se agora em outros meios culturais que, não obstante, também dependem das categorias genéricas próprias ao meio cinematográfico para a geração de sentido. Assim, se os pôsteres sublinham o caráter erótico do filme, relacionando-o a outras modalidades artísticas onde o gênero fora explorado (fotografia, panfleto, revista), os teasers são construídos a partir de diversas outras referências, como a música clássica, o teatro e a literatura, constituindo digressões da matéria usualmente utilizada neste tipo de material.

Também se faz relevante a observação das expectativas de gênero por parte da audiência e como estas são reconstruídas em Nymphomaniac, dando continuidade a um trabalho de incitação emocional e intelectual que é central na obra de Lars von Trier. É neste âmbito que se inserem as discussões quanto à filiação erótica e/ou pornográfica do filme, e como a característica “digressiva” da obra englobaria elementos enriquecedores do aspecto “multifacetado” do filme, como estruturas de “hiperlink”, referências literárias, além de diálogos com a obra de Lars von Trier e com a tradição cinematográfica, em especial com os filmes que versam sobre a sexualidade feminina.

Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: BFI, 1999.

BAINBRIDGE, Caroline. The cinema of Lars von Trier: Authenticity and artifice. Londres: Wallflower Press, 2007

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Antonio Carlos Viana. Porto Alegre : L&PM, 1987.b

BJÖRKMAN, S. (ed) Trier on von Trier. London: Faber and Faber, 2003

LANGFORD, Barry. Film Genre: Hollywood and Beyond. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2005.

GRANT, Barry K. Film Genre: From Iconography to Ideology. New York: Wallflower Press, 2007

WILLIAMS, Linda. Hard Core: Power, Pleasure, and the "frenzy of the Visible". Berkeley: University of California Press, 1989.

XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.