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  Título
Estética e discurso do íntimo no documentário autobiográfico contempor
Autor
Julia Scamparini
Resumo Expandido
As hoje populares escritas de si cinematográficas e literárias vêm provocando interesse e desconfiança, pesquisa e crítica. Ainda que não seja possível discordar de que a hiper-centralidade do eu ou um certo umbiguismo assombrem numerosos trabalhos autobiográficos, esta proposta defende que o falar de si tornou-se uma escolha estética, ou mesmo um gênero, em geral digno de atenção, também por não se restringir a uma única esfera artística.

Muitos filmes autobiográficos recentes alcançam interesse coletivo ao tratar de temas históricos, tais como o período ditatorial brasileiro, e problematizam discursos nunca antes narrativizados pela história, documentando uma memória que só sobrevivia em imagens mentais, imagens vaga-lume. Mas o que se pretende defender com este trabalho é a abrangência coletiva não necessariamente relacionada a eventos políticos, mas ainda política, que se produz com um número considerável de documentários autobiográficos recentes, tais como "Histórias que contamos" (2012) e "Mãe é Deus" (2013) – este último apresentado no Festival É tudo verdade de 2014.

No âmbito dos estudos em intermedialidade, que integram literatura, cinema e outras artes, a análise que aqui se propõe está centrada na abordagem da subjetividade, na reflexão sobre a palavra e a imagem, na concepção de memória, na autorreferencialidade fílmica, no sentido de real e de ficção, características que têm se mostrado constantes em narrativas autobiográficas, literárias e fílmicas.

“Histórias que contamos” (2012), da cineasta canadense Sarah Polley, é um documentário sobre sua mãe, Diane Polley, falecida no início de sua adolescência, cuja história é construída através dos depoimentos de familiares, amigos e colegas de trabalho. Num jogo dentro e sobre o cinema, as imagens do arquivo familiar vão construindo uma Diane Polley que, de início, concorda com os depoimentos colhidos, constituindo-se como documento. Com o desenrolar do filme, porém, os testemunhos vão se distanciando das imagens, desencadeando nos espectadores a expectativa de uma revelação – que será atendida mais à frente – e evidenciando a arbitrariedade da montagem, tanto do material imagético como do verbal.

“Mãe é Deus” (2013) da dinamarquesa Maria Bäck, é um curta-metragem documental sobre as idiossincrasias de sua mãe, apresentada ao espectador de forma gradual através da fala, enquanto conversa com a filha pelo Skype, e de encenações por parte de uma psicanalista que a corporifica, já que não a vemos no filme. As dúvidas sobre a natureza dos delírios dessa mãe, sobre quem é quem, o que é lembrança sentida e o que é desejo, o que é passado e o que é performance – ou o que foi vivido e o que é vivido para a câmera – encontram o cinema como expressão fundamental, que nos desloca para um lugar onde real e ficção não são opostos.

O ato político desses filmes sobre experiências tão pessoais pode ser identificado na exposição do trauma, no mostrar o que comumente se que esconder: minha mãe cometeu adultério, minha mãe é louca. Trata-se de um ato político que se limita à esfera dos afetos mais íntimos, dos discursos que raramente ganham voz, mas que cada vez mais fazem parte de um posicionamento subjetivo do século XXI.

Bibliografia

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LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

LINS, C.; REZENDE, L.A.; FRANÇA, A. A noção de documento e a apropriação de imagens de arquivo no documentário ensaístico contemporâneo. In: Revista Galáxia, São Paulo, n. 21, p 54-67, jun/2011.

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TAVARES, D. Subjetividades transbordantes: apontamentos sobre o documentário biográfico, memória e história. In: Doc Online, n. 15, p 111-131, dez/2013.