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  Título
Foco narrativo e construção de personagem no documentário de expedição
Autor
denise tavares da silva
Resumo Expandido
A ideia de territórios esquecidos coadunada ao ideário que corporifica a luta em defesa do meio-ambiente tem atraído - não pouco - documentaristas, cujo propósito é realizar projetos que estamos chamando aqui, um tanto genericamente, de "cinema de expedição". Deste espectro (ou subgênero) podemos citar documentários como AmazôniAdentro (2011), de Edilson Martins, depois transformado em série de quatro capítulos veiculados pela TV Brasil; O Brasil da pré-historia - o Poço Azul (2008), de Maurício Dias e Tulio Schargel que, acompanhando um grupo de paleontólogos em busca da preguiça-gigante chegam ao Poço Azul, na Bahia ou, ainda, Verde Salvaje (2013), da venezuelana Belén Orsini, documentarista que integra a expedição de um grupo de biólogos da Venezuela ao Arquipélago Los Roques e ao Golfo da Venezuela, onde vivem as tartarugas verdes e o povo Wayuu.

São filmes construídos, quase sempre, na perspectiva de uma certa militância que procura se distanciar, estética, estilística e eticamente da narrativa jornalística, na medida que mobilizam, como questões centrais, vivências e descobertas que não se prendem aos discursos da objetividade ou ao não-envolvimento com as situações colocadas. Deste princípios, resultam obras que, mesmo algumas vezes não tendo grandes pretensões de experimentações formais, colocam questões que, a nosso ver, merecem ser discutidas. Entre estas, destacamos aqui, o foco narrativo e a construção dos personagens que tecem os muitas vezes tênues fios da história, em função da preponderância que os locais assumem na narrativa, delineando uma espécie de "protagonista maior", que justifica, inclusive, a existência do documentário.

É o que ocorre, especialmente, em Expedição Viva Marajó (2012), de Regina Jehá e no documentário Vale dos Esquecidos (2010), de Maria Raduan. Com ritmos narrativos totalmente distintos e acionando seus personagens em abordagens também muito diferenciadas, ambos trazem à tona a dificuldade de equilíbrio entre diegese e narração ao se esforçarem, por exemplo, em diluir o que Maurice-Jean Lefebve (1976) chama de "visão por detrás" da narrativa sem, no entanto, assumirem, explicitamente, uma condução em primeira pessoa. Neste percurso, embaralham a distinção entre narrador e autor, ao mesmo tempo que procuram dar maior nitidez aos "personagens sociais" do mundo histórico que focam (o que nem sempre ocorre). São estas e outras tensões que problematizamos em uma investigação recém-iniciada com o apoio do CNPq, que tem como objetivo central a produção de material teórico reflexivo sobre a relação do documentário com a ciência.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. "O narrador". In Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultura, 1983.

FREIRE, Marcius. Documentário - Ética, Estética e Formas de Representação. São Paulo: Annablume, 2012.

LEFEBVE, Maurice-Jean. Estrutura do discurso da poesia e da narrativa. Coimbra: Livraria Almedina, 1976.

RAMOS, Fernão. Mas afinal...o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora SENAC, 2008.

RENOV, Michael (Org.) (1993). Theorizing Documentary. New York: Routledge, 1993.