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  Título
Test Pattern: propostas para um ‘acinema’ contemporâneo
Autor
Rodrigo Corrêa Gontijo
Resumo Expandido
Diversas experiências audiovisuais promoveram uma série de deslocamentos que romperam com o padrão hegemônico do cinema narrativo, consolidado na década de 1910. A mais radical delas foi o ‘acinema’ que estilhaçou a narrativa cinematográfica e reinventou maneiras de se produzir imagens em movimento. Esta tendência do cinema experimental abarca os filmes gráficos e se apresenta de diversas formas: música visual, filme computacional, filme métrico e sua concepção mais contemporânea, o cinema generativo.



O cinema generativo é apresentado em performances audiovisuais onde a imagem é produzida a partir de programas computacionais que reconhecem determinados padrões sonoros convertendo-os, no instante da apresentação, em imagens anteriormente convencionadas pelo artista. Ao captar um som, a partir de dispositivos instalados no computador, algoritmos binários referentes a determinados parâmetros sonoros (frequência, timbre ou volume) são transformados em algoritmos relacionados a imagens abstratas que se constroem numa relação direta com a música. Formas, cores, velocidades, pulsações, ritmos e andamentos surgem conectados diretamente à música, em apelos sinestésicos, desafiando os sentidos e provocando sensações. Este tipo de visualização sonora “pode ser concebido como um subconjunto de mapeamento no qual um conjunto de dados é mapeado em imagens” (MANOVICH, 2004, p.136).



Este presente trabalho analisa a performance audiovisual generativa Test Pattern (2008) de Ryoji Ikeda relacionando-a à três obras do cinema experimental abstrato: Begone Dull Care (McLaren, 1949), Arnulf Rainer (Kubelka, 1960) e Catalogue (Whitney, 1961). O filme de Norman Mclaren estabelece relações diretas entre imagens e sons, o de Peter Kubelka provoca a visão do espectador com intervalos acelerados de preto e branco e o de John Whitney desenvolve um catálogo ritmado de formas, padrões e movimentos que vão da contração à expansão de maneira dinâmica e inesperada. Assim, como em Test Pattern, nenhum deles se utiliza da imagem produzida por câmeras. Os dois primeiros são feitos a partir de intervenções diretamente na película, o terceiro foi gerado a partir de um computador analógico.



Em Test Pattern, Ikeda incorpora a sinestesia encontrada nos filmes de McLaren, as pulsações vibrantes de Kubelka e as formas computacionais de Whitney e assim como seus antecessores nos conduz a um cinema que atua no limiar da percepção humana e caminha pelo universo do “único cinema que merece ser qualificado de não-narrativo” (PARENTE, 2000, p.97).



Segundo Lyotard, o ‘acinema’ situa-se “nos dois pólos do cinema tomado como grafia dos movimentos: a imobilização e a mobilização extrema” (LYOTARD, 2004, p.227) onde qualquer imagem se liga a outra, através de pulsões livres, sem um limite ou ordenamento espaço-temporal. Esta nova estética, onde o fluxo imagético deixa de ser calculado em segundos e passa a ser trabalhado no nível unitário de cada frame, produz trabalhos com imagens abstratas, cheias de vibrações e oscilações que “rompem com o movimento médio do cinema em geral, interrompendo seu fluxo narrativo” (LYOTARD apud PARENTE, 2008, p.35)



Ao estabelecer relações entre filmes de diferentes períodos (anos 40, 60 e 2000), procuraremos mostrar, à luz de teóricos como Jean-François Lyotard, André Parente e Lev Manovich, como o cinema generativo aponta para um caminho de experimentações que foram impulsionadas pelas heranças deixadas por propostas desenvolvidas ao longo da história do cinema experimental abstrato. Enfim, trata-se de uma tentativa de se pensar um campo recente do audiovisual, resgatando conceitos e apontando caminhos que atualizam a proposta do ‘acinema’, também conhecido por cinema-matéria.

Bibliografia

GONTIJO, Rodrigo. Obras e procedimentos – uma análise dos cinemas ao vivo. TECCOGS – Revista Digital de Tecnologias Cognitivas (PUC-SP) - n.6, 2012.



LYOTARD, Jean-François. O acinema. In RAMOS, Fernão Pessoa (org.). Teoria Contemporânea do Cinema - vol.1. São Paulo: Senac, 2004



MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Cambridge: MIT Press, 2001.

_______________. A visualização de dados como a nova abstração anti-sublime. Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (UFRJ), 2004.



PARENTE, André. Narrativa e modernidade – os cinemas não-narrativos do pós- guerra. Campinas: Papirus Editora, 2000.

_______________.Cinema em contracampo. In MACIEL, Kátia (org.). Cinema Sim – narrativas e projeções. São Paul: Itaú Cultural, 2008.



TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Cinemas “não narrativos”: experimental e documentário – passagens. São Paulo: Alameda, 2012.



WORMS, Anne-Cécile (org.). MCD – Musiques & Cultures Digitales. Paris: K.D.Press, 2010.