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  Título
Os monstros vêm de dentro: hibridismos genéricos em David Cronenberg
Autor
Lillian Bento de Souza
Resumo Expandido
A década de 1970 foi um período de transição e consolidação do cinema de David Cronenberg, uma fase de intensa experimentação em que o diretor canadense foi apontado muitas vezes pela crítica como o rei do horror venéreo. Ao mesmo tempo em que admitia sua inquietação diante do corpo, da enfermidade e da morte, temáticas sempre presentes em suas obras, e a influência dos filmes de Ficção Científica B dos anos 1950 em sua cinematografia. As transformações do corpo humano a partir de interferências da biotecnologia e as tentativas da ciência de criar um ser humano capaz de superar doenças e a própria morte sempre evocaram a semântica da Ficção Científica para seus filmes, no entanto, a sintaxe muitas vezes apontava mais para o que seria um cinema de horror. No entanto, ao olharmos para a produção do artista nesse período o que se verifica é um hibridismo de gêneros, que agrega ainda elementos do Fantástico, e que viria a marcar toda a carreira do cineasta, apontado atualmente como autor de um cinema em carne viva.

A proposta dessa comunicação é analisar os quatro longas metragens lançados em toda a década de 1970, com direção de David Cronenberg, sendo eles: Crimes of the Future (1970), Shivers (1975), Rabid (1977) e The Brood (1979). A partir desse recorte histórico o que se pretende é lançar um olhar sobre os hibridismos genéricos presentes nessas obras, primordiais para a análise da cinematografia de Cronenberg por integrarem a primeira fase de transição entre o cinema independente e o circuito comercial, de formação de público e de forte presença de seu nome na critica especializada. Rick Altman (1984) aponta para a possibilidade de que muitos filmes combinassem a “semântica” – interesse pelo conteúdo narrativo – de um gênero com a “sintaxe” – foco nas estruturas nas quais são inseridos os elementos narrativos – de outro, criando assim, uma abordagem própria.

Ao evocar nessas quatro obras a presença as transformações do corpo humano e a presença de criaturas desconhecidas que desestabilizam a ordem vigente, Cronenberg traz um elemento marcante dos filmes de Ficção Científica, que nos filmes do gênero muitas vezes aparecem como alienígenas. No entanto, nos quatro filmes aqui analisados essas ameaças vêm de dentro, surgem do próprio corpo, transformando-o e gerando monstros incontroláveis de diferentes naturezas, de parasitas que levam as pessoas a cometerem violência sexual a mulheres-mutantes que matam movidas pelo ódio e pelo desejo.

Para Michel Marie e Julier Laurent (2009) os gêneros funcionam como uma espécie de paradigma de expectativas, cujas cláusulas às vezes compreendem elementos de estilo e de técnica narrativa e podem oferecer um esboço para quem elabora e um horizonte para quem assiste a um filme. No entanto, para Cronenberg a preocupação em pertencer a um gênero não seria, segundo o próprio diretor, um guia para seu trabalho, mesmo admitindo que criou uma relação direta com o público, que reconhece em sua obra elementos do terror e da Ficção Científica. “Não necessitava que os críticos levassem meus filmes a sério para sobreviver porque os aficcionados ao terror sempre estavam dispostos a ver esses filmes.” (Rodley, 2000:105)

Torna-se assim, pertinente, a análise genérica para identificar as aproximações e distanciamentos existem em sua obra em relação aos gêneros Horror e Ficção Científica, bem como os elementos novos que surgem desse hibridismo, que passa também por outros gêneros, uma vez que o próprio Cronenberg reconhece o cinema como um campo de experimentação. Assim, a proposta da presente comunicação é apontar os elementos formalmente estáveis, semânticos e sintáticos, que caracterizam um filme como sendo de FC ou Horror e a partir de então analisar a presença e/ou ausência desses elementos nos filmes aqui relacionados. A busca por confrontar o que Robert Stam (2003) chama “forma exterior” e “forma interior” do filme e como o diretor articula esses elementos é o objetivo principal deste trabalho.
Bibliografia

AUMONT, J. A estética do filme. Campinas, SP: Papirus, 1995 – (Coleção Ofício de Arte e Forma).

BEARD, William. The Artist as Monster: The Cinema of David Cronenberg. Rev. and expanded. Toronto – Canada, 2006.

DUFOUR, Eric. O cinema de Ficção Científica. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2012.

GOROSTIZA, J., PÉREZ, A. David Cronenberg. Madrid: Ediciones Cátedra, 2003.

JULLIER, Laurent. Lendo as imagens do cinema. Laurent Jullier e Michel Marie; tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2009.

NOVAES, Adauto. O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. Organizador Adauto Novaes. – São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Vários autores.

SANTOS, Jair Ferreira dos. Breve, o pós-humano: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 2003.

STAM, Robert. Introdução a Teoria do Cinema. Campinas/SP: Papirus, 2003. (Coleção Campo Imagético)

XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema. São Paulo: Graal Editora, 3ª ed., 2003.