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  Título
O EXTRAMUSICAL
Autor
CAROLINA OLIVEIRA DO AMARAL
Resumo Expandido
O cinema contemporâneo, muitas vezes, se caracteriza pela insubordinação a gêneros narrativos, como conhecíamos anteriormente, mantendo, no entanto, um diálogo constante com essa tradição. Dessa forma, analisamos filmes narrativos contemporâneos que dialogam com o musical, por trazerem performances musicais ao longo da história, sem, no entanto, se indentificarem com o gênero, já que apresentam a performance como exceção e não como regra. Chamaremos de extramusical, quando performances musicais são deslocadas para o cinema narrativo fora do próprio gênero. Este trabalho investiga o entrelaçamento de narrativas contemporâneas de ficção e a presença do extramusical.

Usamos o termo “performances musicais” justamente para ressaltar o caráter não genérico dos filmes, fazendo uma aproximação ao mesmo tempo distanciada do musical, em que a performance está estilizada e categorizada na noção de número musical. A idéia de “número” implica uma serialidade, presente na própria palavra. Pertence a uma tradição do espetáculo que precede o cinema com grandes atrações ensaiadas (ou até improvisadas) e apresentadas para um público.

A performance musical apresenta características particulares que vislumbram uma espécie de mise en scène própria, um estilo que se aproxima do gênero musical, sem no entanto, ser lido como tal. Se a mise en scène é a organização dos corpos no espaço fílmico, “ações e reações de um ator em um cenário” (Oliveira Junior, 2013, p.58) e também num tempo, a performance musical organiza esses corpos como performer e público, um dependente do outro, num espaço próprio que se cria dentro do filme. O direcionamento de olhares, a maneira como sentimentos são revelados, como se conjugam ações e reações, o privilégio pelo excessivo prazer exibicionista do espetáculo. O “estilo musical” se estabelece, principalmente pela mesma unidade: a cena musical, voltada “para a representação de estados emocionais, tais como grandiosidade, vitalidade ou ameaça” (Bordwell, 2005, p. 59). Bordwell (ibidem, p. 58) lembra que é através do estilo que entramos no filme, ou no caso do extamusical, na cena, “o estilo é a textura tangível do filme, a superfície perceptual com a qual nos deparamos ao escutar e olhar: é a porta de entrada para penetrarmos e nos movermos na trama, no tema, no sentimento e tudo o mais que é importante para nós”. Dessa forma, o extramusical é o musical fora dele próprio que se reinventa numa única cena, num fragmento.

Ao assumir esse estilo, esse padrão de organização dos corpos num cenário e num tempo semelhante ao musical, o cinema narrativo contemporâneo se apropria e reinventa a performance musical. A cena musical, deslocada de seu habitat natural, posta em “outro lugar”, um lugar além do próprio gênero, por sua vez se torna outra, se torna além, e portanto, “extra”. O extramusical apresenta um estilo próprio e diverso, que não se opõe ao musical, pelo contrário, o leva para além dos seus próprios limites. O prefixo latino “extra” se refere ao que está além, em posição exterior ou em excesso e, para nós, se encaixa na ambigüidade dos dois significados.

Ao se oferecer para o público enquanto deleite visual, o extramusical, normalmente se destaca dentre as sequências do filme. Curiosamente, essa cena que nos convida a parar e olhar, acaba por desenvolver viradas narrativas, soluções de tensões, desfechos e clímax. É o que observamos, por exemplo, nos filmes Os amantes passageiros (Los amantes Pasajeros, Pedro Almodóvar, Espanha, 2013) e Antes do pôr-do-sol (Before Sunset, EUA, Richard Linklater, 2004) analisados no trabalho. A música cantada ou dançada por personagens promove avanços narrativos enquanto se apresenta como espetáculo. Por conta dessa dupla função, narrativa e performática, o extramusical oferece uma comunicação particular com o espectador, uma forma de engajamento, que se beneficia das duas maneiras simultaneamente, exploradas com detalhes nas análises dos filmes.

Bibliografia

ALTMAN, Rick. The American Film Musical. Bloomington & Indianápolis: Indiana University Press, 1989.

____________. A Theory of Narrative. New York: Columbia University Press, 2008.

BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz. Campinas: Papirus Editora, 2005.

FEUER, Jane, The Hollywood Musical 2nd edition. Bloomington & Indianápolis: Indiana University Press, 1993.

LAING, Heather. Emotion By Numbers: Music, Song and the Musical. In: MARSHALL, B. e STILWELL, R. (eds.) Musical Hollywood and Beyond. Portland: Intellect Books, 2000

OLIVEIRA JUNIOR, Luiz Carlos. A mise em scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013

SMITH, Murray. Espectatorialidade cinematográfica e o estatuto da ficção. In RAMOS, F. Teoria Contemporânea do Cinema Volume I. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2005.

VIEIRA, João Luiz. Cinema e Performance. In: XAVIEL, I. (org.) O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007