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  Título
Entre passado e futuro: memória, utopia e distopia em Branco sai preto fica
Autor
Cláudia Cardoso Mesquita
Resumo Expandido
Para abordar um acontecimento real passado, Branco sai preto fica (2014), novo longa-metragem de Adirley Queirós, faz um surpreendente desvio pela ficção-científica. Do futuro vem Dimas Cravalanças, “agente terceirizado do Estado brasileiro”, incumbido de colher evidências de crimes passados, cometidos “do alto” contra populações negras e periféricas. Entre um futuro utópico, no qual a recuperação das histórias dos vencidos é levada a cabo pelas instituições, e um passado traumático, em que os pobres têm sua participação e presença na cidade “mutiladas” pelo próprio Estado, situa-se o tempo predominante no filme, a brecha do “presente”. Interessa-nos pensar o que a ficção especula para a atualidade, e de que modos a operação histórica encontra lugar nesta intrigante fábula que atribui aos personagens inventados o passado real dos atores de Ceilândia (DF).

Com relação ao trabalho anterior de Queirós, é como se este filme, cuja moldura ficcional é mais coesa, pudesse se apropriar da história de Brasília de maneira ainda mais inventiva, submetendo-a não apenas ao ponto de vista dos “vencidos” (como vemos em A cidade é uma só?) mas à sua fabulação e extrapolação. Para recuperar a história do Quarentão, baile black fechado violentamente pela polícia em 1986, a narrativa envolve as falas e os corpos mutilados de dois “sobreviventes” (os atores Marquim do Tropa e Chokito, que fazem os protagonistas Marquim e Sartana). Seus corpos e suas memórias, arquivos-vivos, vestígios, participam de uma intensa especulação – visual, sonora e narrativa – que põe em cena fragmentos do “presente” da cidade, a partir de um ponto de vista futuro (“Antiga Ceilândia, DF”, lemos no primeiro letreiro contextualizador).

As aspas no “presente” são propositais: diferentemente de A cidade é uma só?, aqui o tempo do drama não é uma atualidade reconhecível, mas um “presente” incerto, já especulado pela ficção. Tal especulação se aproxima de algo que a teoria crítica notou nos chamados romances distópicos (Kafka, Bradbury, Orwell) de começo do século XX: seu caráter de “aviso de incêndio”, de narrativa que busca apontar tendências perigosas da atualidade, a partir de sua intensificação e extrapolação ficcional (HILÁRIO, 2013). Assim, no “presente” do filme, multiplicam-se dispositivos que separam o Plano Piloto das outras regiões administrativas de Brasília, de modo a institucionalizar a separação e evidenciar que a utopia passada (que moveu a construção da cidade modernista “do futuro”) é reservada para uns poucos segmentos da sociedade.

Recorrer à ficção científica é, portanto, articular elementos utópicos e distópicos: de um lado, “extrapolar”, de maneira irônica mas ainda utópica, ao imaginar um “futuro” em que será feita a reparação dos crimes cometidos pelo Estado contra negros e pobres (base da missão de Cravalanças, homem de 2070, em sua viagem no tempo); mas, de outro, especular em torno de características sinistras da atualidade, de modo a expor de maneira emblemática as desigualdades históricas, cristalizadas no “presente” em um modelo sócio-político de apartheid e controle: no filme, a “polícia do bem estar social” exige um “passaporte de acesso” à cidade de Brasília (leia-se Plano Piloto), e emite um toque de recolher, toda noite, no Distrito Federal.

Nessa intrincada construção temporal, interessa-nos examinar as formas como Branco sai preto fica narra e reflete sobre a História. Além de lançar mão de fotografias documentais de arquivo pessoal dos atores (na montagem e em cena), o drama incorpora de maneira contundente os corpos mutilados e as memórias de Marquim e Chokito, que são, eles mesmos, a presença indicial do acontecimento real passado no presente “especulado”. Examinaremos como vestígios e testemunhos participam do novum (materialização de uma inovação histórica) da ficção científica (com sua perna mecânica e eletrônica, Sartana é um verdadeiro ciborgue), e o que tal especulação aporta para a operação histórica pelo filme realizada.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da História”. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

HILÁRIO, Leomir Cardoso. “Teoria crítica e literatura: a distopia como ferramenta de análise radical da modernidade”. Anu. Lit., Florianópolis, v.18, n. 2, p. 201-215, 2013.

LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. "Apresentação a Faire de l'histoire". Nova História em Perspectiva (org. Fernando A. Novais e Rogerio F. da Silva). SP: Cosac Naify, 2011.

MESQUITA, Cláudia. “Um drama documentário? Atualidade e história em A cidade é uma só?. Revista Devires - Cinema e Humanidades. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. v.8, n.2, jul/dez 2011.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo, 1981.