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  Título
A experiência imersiva do 3D no cinema contemporâneo
Autor
Erika Savernini
Resumo Expandido
O cinema 3D parece ter ganhado novo vigor, desde o final da primeira década do século XXI. A criação fílmica da representação do espaço tridimensional pela estereoscopia remonta ao pré-cinema. Segundo Dickson e Dickson (2000), Thomas Edison e Dickson, assistente na invenção do kinetoscópio e, posteriormente, nas primeiras produções do estúdio, já haviam testado diversos aparelhos de captação da imagem em movimento, mas com baixa definição, quando, em 1889, conseguiram qualidade bastante para testes com imagem e som (pela integração com o fonógrafo) e também de estereoscopia. A binocularidade (olhos frontais que constituem pontos de observação diferentes pela distância pupilar) é a qualidade fundamental da visão humana que permite a percepção da profundidade, estando diretamente relacionada à experiência espacial, de estar no mundo. No momento atual, a exploração técnica da estereoscopia pelo cinema industrial parece estar repetindo, com maior qualidade técnica, o modismo que representou o 3D nos anos 1950. Então, como com a profusão de filmes de aventura e de ação produzidos atualmente, buscava-se o impacto visual monumental dos grandes espaços e o susto (muitas vezes, pela paralaxe negativa – momentos nos quais os objetos projetam-se como que para fora da tela, em direção ao público). Pretende-se, no entanto, a discussão de experiências de imersão que se configuram inventivamente no cinema contemporâneo; produções polarizadas entre a narrativa documental e a fantasia ficcional que apontam o 3D não apenas como um recurso tecnológico atrativo, mas uma nova ferramenta a serviço da sensibilidade do realizador e uma nova dimensão da narrativa, literal e figurativamente. Wenders (2011), logo após o lançamento do filme Pina 3D, declarou, em conferência em Toronto, sua convicção de que o 3D estaria sendo subaproveitado em sua qualidade de aproximação do real com o público – uma vez que a indústria cinematográfica optava justamente pela narrativa fantasiosa. Ao testar diversas formas de filmar o grupo de Pina Bausch, Wenders sentia que algo como uma parede separava a câmera das performances. O 3D, em sua qualidade essencialmente espacial, surgiu como a solução ideal – só então a parede se desfez, segundo Wenders, por ser a dança também essencialmente uma arte no espaço. O que se pode perceber, então, é que a câmera, como um ponto de vista localizado fora da tela, passaria a comungar, de forma mais sensível, do mesmo espaço projetado na tela (para dentro dela, como é o efeito produzido pela paralaxe positiva; na tela, paralaxe zero; à frente dela, paralaxe negativa). Werner Herzog, em Cave of forgotten dreams, também emprega o 3D na narrativa documental, de forma a criar uma experiência espacial, mas também sentidos – há um momento, por exemplo, que a colocação da câmera constrói uma narrativa (em primeiro plano, numa saliência de rocha, há uma pintura rupestre de um tipo de felino, ao fundo, na parede da caverna, pinturas de um tipo de bovino, no plano em 3D, cria-se uma cena de caça). Por outro lado, na vertente experimental da narrativa fantasiosa, Ang Lee, em As aventuras de Pi, configura uma fábula (narrativa que guarda uma lição por sob a narrativa superficial, geralmente encarnada por animais antropomorfizados) narrativa e tecnicamente, pois que há camadas de interpretação da história e de constituição da imagem em 3D. Destacam-se, por isso, as formas de transição entre cenas do presente da narração com o flashback por camadas dentro do plano – uma reinvenção da transição, similar ao que Welles e Toland fizeram com as fusões por iluminação em Cidadão Kane. Em A invenção de Hugo Cabret, Martin Scorsese homenageia Georges Méliès não apenas por toma-lo como personagem da história (adaptada do livro de Brian Selznick). Mais que uma análise desses filmes, propõe-se uma reflexão sobre o 3D como um recurso ainda em construção aplicável à ampliação da experiência espacial e à potencialização das camadas de significação da narrativa.
Bibliografia

AS AVENTURAS DE PI. De Ang Lee. Brasil: 20th Century Fox. Blu-ray 3D.



CAVE OF FORGOTTEN DREAMS. 2010. De Werner Herzog. USA: Picturehouse Entertainment e Revolver Entertainment. Blu-ray 3D.



DICKSON, W.K.L.; DICKSON, Antonia. History of the Kinotograph, Kinetoscope and Kinetophonograph. New York: Museum of Modern Art, 1895 (facsimile edition 2000).



HENRIQUES, Carlos A.. A invasão do 3D no cinema e na televisão. Prefácio de José Alberto Carvalho. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2010.



HUGO. 2011. De Martin Scorsese. USA: Paramount. Blu-ray 3D.



PINA. 2011. De Wim Wenders. USA: The Criterion Collection. Blu-ray 3D.



WADE, Nicholas J.. A natural History of Vision. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 1998.



WENDERS, Wim. Keynote speech by Wim Wenders. In: TORONTO INTERNATIONAL STEREOSCOPIC 3D CONFERENCE, Toronto, 2011. Disponível em: . Acesso em: 07 jul. 2013.