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  Título
"Limite" a 78 R.P.M. - O som de Brutus
Autor
Alexandre Ramos Vasques
Resumo Expandido
A investigação da trilha musical de "Limite", compilada por Brutus Pedreira, e, principalmente, da sua forma de reprodução, podem nos levar à problematização do contexto das técnicas de reprodução sonora no mercado exibidor brasileiro dos anos 1930, e também a desestabilizar alguns conceitos relacionados à História do Cinema no Brasil.

Realizado em 1930, finalizado e exibido pela primeira vez em 1931, o filme de Mário Peixoto é exibido no cinema Capitólio num momento em que o cinema falado norte-americano já havia se consolidado no circuito exibidor, com o auxílio de títulos sobrepostos à imagem. Percebemos que esse contexto do mercado exibidor brasileiro no início da década de 1930, em relação à reprodução sonora, não poderia de forma alguma se entusiasmar com a trilha musical de "Limite" e com a sua forma, cada vez mais antiquada, de reprodução.

As possíveis formas de reprodução da trilha musical, certamente a controvérsia menos aprofundada na história de "Limite", transitam entre duas possibilidades envolvendo a reprodução dos temas escolhidos por Brutus: ou através de discos de Vitaphone, ou através de discos de 78 r.p.m. para serem tocados em pickups convencionais. Buscamos mostrar neste trabalho como os argumentos favoráveis à versão dos discos vitaphonizados podem ser confrontados com a presença de Brutus Pedreira na manipulação dos discos durante as projeções, na tentativa de imprimir um sincronismo entre a imagem e som do filme que fatalmente não encontraria êxito com os discos de 33 e 1/3 r.p.m., qualidade colocada em dúvida constantemente nos artigos e matérias aos quais tivemos acesso sobre a técnica de reprodução de som da Western Electric.

Um dos pontos de maior relevância em torno do sincronismo musical de "Limite" relaciona-se ao ajuste dos fade-ins e fade-outs sonoros aos muitos pontos de fusão das imagens. O sincronismo dos aparelhos Vitaphones foram colocados à prova por críticos de revistas, como os de "Cinearte", por exemplo, e também por operadores cinematográficos, em depoimentos publicados em variados órgãos. Brutus Pedreira, para reproduzir a trilha musical de "Limite" para os 400 convidados da sessão inaugural do filme no Capitólio, teria utilizado duas pickups certamente para efetuar os efeitos de fade-in e fade-out. O sincronismo obtido nas projeções de "Limite" em que Brutus Pedreira se fez presente - do Capitólio à primeira exibição do filme aos alunos da Faculdade Nacional de Filosofia - foi frequentemente elogiado pela imprensa da época.

Um outro argumento que reforça a tese dos discos convencionais está relacionado ao improvável desejo, necessidade e mesmo condição financeira de Mário Peixoto na confecção de discos Vitaphone para reproduzir a trilha de "Limite", completamente desprovida de fala, integralmente construída a partir de temas clássicos de Borodin, Franck e Satie, entre outros.

Historicamente, "Limite" está relacionado ao “canto do cisne” do dito cinema silencioso no Brasil. A questão conceitual problematizada pela trilha musical de "Limite" diz respeito à visão de que o filme de Mário Peixoto não é um dos representantes do cinema silencioso brasileiro, justamente por apresentar uma trilha musical definida, compilada e ajustada para ser executada rigorosamente em parceria com as imagens sendo executada por discos ou até mesmo por orquestras, desde que estas estivessem à altura dos temas escolhidos por Brutus.

Ao mesmo tempo em que, a partir de um depoimento de Saulo Pereira de Mello, restaurador do filme, colocamos em xeque à relevância para Mário, Plínio Süssekind Rocha e o próprio Saulo da trilha musical como parte da obra "Limite", percebemos o quanto a compilação de Brutus gera a estima do trio guardião do filme. Para nós, significaria, mais ou menos, afirmar que a trilha musical é dispensável à apreciação da obra, entretanto qualquer enxerto de uma outra trilha, até mais atual, representaria uma heresia, deturpando a obra como um todo.

Bibliografia

COELHO, Maria Fernanda Curado. "A experiência brasileira na conservação de acervos audiovisuais: Um estudo de caso"./ Dissertação de Mestrado, USP, 2009.

FELICE, Fabrício. "A apoteose da imagem: Cineclubismo e crítica cinematográfica no Chaplin-Club"./ Dissertação de Mestrado, UFSCar, 2012.

FREIRE, Rafael de Luna. “A conversão para o cinema sonoro no Brasil o mercado exibidor na década de 1930”. In.: Significação, v. 40, n.40, 2013.

MELLO, Saulo Pereira de. "Notas para a história de Limite". Folhetim, São Paulo, out. 1988.

MELLO, Saulo Pereira de. "Limite". Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

RAMOS, Lécio Augusto. “Limite e sua trilha musical”. CD-ROM produzido pelo

Laboratório de Investigação Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, 1998.

VASQUES, Alexandre Ramos. "Nos rastros de Limite : um estudo de caso na história da preservação das imagens em movimento no Brasil" / Dissertação de Mestrado,UFSCar, 2012.