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  Título
Medos independentes: uma recepção crítica de Quando Eu Era Vivo
Autor
Rafael Oliveira Carvalho
Resumo Expandido
No âmbito do circuito de festivais de cinema no Brasil, a Mostra de Cinema de Tiradentes consolida-se cada vez mais como uma das maiores e mais prestigiadas plataformas de lançamento do chamado cinema independente brasileiro. Sediada na cidade história de Tiradentes, em Minas Gerais, a Mostra é conhecida por seu trabalho de curadoria que privilegia filmes e realizadores que buscam uma abordagem narrativa particular e propõem rumos desafiadores e/ou originais para o cinema nacional.



A partir das perspectivas dos estudos de recepção, que têm na crítica de cinema um dos vestígios possíveis de recepção de uma obra fílmica (STAIGER, 2000; FIGUÊIROA, 2004; ALTMANN, 2010; GOMES, 2006), propomos aqui uma abordagem analítica das críticas cinematográficas sobre o filme Quando Eu Era Vivo, dirigido por Marco Dutra, longa-metragem escolhido para abrir a Mostra de Cinema de Tiradentes em sua edição de 2014 e que dialoga, a seu modo, com as marcas do terror e do suspense.



Entende-se a crítica cinematográfica e as mostras e festivais de cinema como importantes instâncias de consagração das obras fílmicas. Buscamos, com essa análise, entender de que maneira os discursos dos críticos colocam-se diante das vertentes de uma produção nacional que busca diálogos mais conceituais e consistentes com o público, e menos uma proposta de consumo e entretenimento rápido, como vem se tornando muito comum numa dada produção de cinema brasileiro recente.



O fenômeno das comédias brasileiras, especialmente aquelas produzidas pela Globo Filmes, encontram nas salas comerciais de cinema espaço cativo de exibição, enquanto filmes mais autorais e instigantes têm nas mostras e festivas um espaço reservado para circulação e visibilidade. Nesse panorama, a crítica de cinema possui importância fundamental porque consegue fazer interconexões e mediações entre as obras e o público espectador, especialmente quando esses filmes de caráter mais “arrojado” e menos “comerciais” são lançados nas salas do circuito exibidor, como foi o caso de Quando Eu Era Vivo, poucos dias após estrear e abrir a Mostra de Cinema de Tiradentes.



Partimos também das perspectivas teórico-metodológicas dos estudos da Nova Retórica (PERELMAN, 2005), que encontram nos discursos da crítica de cinema um lugar de aplicação, ainda que não intencional, uma vez que o ato hermenêutico realizado pelos críticos solicita então uma argumentação retórica (CUNHA, 2004; BORDWELL, 1991). Utilizamos essa abordagem a fim de compreender e analisar quais os pressupostos argumentativos e persuasivos que os sujeitos críticos usam para convencer o leitor de suas proposições e juízos de valor acerca das obras criticadas.

Bibliografia

ALTMANN, Eliska. O Brasil imaginado na América Latina: a crítica de filmes de Glauber Rocha e Walter Salles. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2010.



BAMBA, Mahomed (Org.). A recepção cinematográfica: teoria e estudos de caso. Salvador: EDUFBA, 2013.



BORDWELL, David. Making meaning: inference and rhetoric in the interpretation of cinema. USA: Harvard University Press, 1991.



CUNHA, Tito Cardoso e. Argumentação e crítica. Coimbra: MinervaCoimbra, 2004.



FIGUÊIROA, Alexandre. Cinema Novo: a onda do jovem cinema e sua recepção na França. Campinas: Papirus, 2004.



GOMES, Regina. O cinema brasileiro em Portugal: contexto e análise acerca da crítica de filmes brasileiros publicada na imprensa lisboeta (1960-1999). Tese de doutorado, Universidade Nova de Lisboa, 2006.



PERELMAN, Chaïm, OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica. São Paulo, Martins Fontes, 2005.



STAIGER, Janet. Perverse spectators: the practices of film reception. New York: New York University Press, 2000.