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  Título
São Jerônimo de Júlio Bressane: Da Transcriação como Caminho Crítico
Autor
Adriano Carvalho Araújo e Sousa
Resumo Expandido
Proponho uma análise de São Jerônimo, em séries pictóricas, que Júlio Bressane aborda segundo o processo de transcriação para o cinema.

O conceito muda para Haroldo de Campos que passa a tratá-lo com a perspectiva de exceder “os lindes de sua [linguagem], estranhando-lhe o léxico, [...] até que o desatine e desapodere aquela última hybris [...] que é transformar o original na tradução de sua tradução” (Campos, 1977). A transcriação manipula um conjunto de imagens que remete à amplitude, à reverberação na cultura do que o diretor chama “signo Jerônimo”. Visa-se o não formalizável, o que coloca as coisas em movimento, num diálogo com Henri Meschonnic, os elementos que ajudam a encontrar o ritmo da tradução.

Indagamos o que faz a pintura, ou seja, o que constroem as texturas, sobretudo, a partir de Vittore Carpaccio e de Leonardo da Vinci. Pergunta-se o que é possível extrair da investigação das cores levada a diante pelo diretor. A luz da paisagem é estilizada em um amarelo alaranjado que muda de tonalidade segundo os quadros e andanças do protagonista. Os retratos oferecem um gestual.

Pintura, literatura e cinema interagem no sentido de trazer propriedades imagéticas para transcriar o signo Jerônimo e, ao mesmo tempo, favorecem uma leitura crítica de elementos presentes nos textos e na iconografia sobre o santo, tais como, a caveira, a cruz e o leão, amplamente trabalhados pelo cineasta. Por outro lado, a literatura dos anacoretas do deserto se materializa na recriação da paisagem com remissões ao vento, ao silêncio, às pedras, mas também aos sons das sinetas, ao canto das arapongas, trazidos na manipulação de elementos tão presentes em Vidas Secas, sem deixar de lado a fotografia estourada e a aridez da paisagem.

A câmera alterna travellings e planos fixos como se investigasse os corpos e os símbolos. O ritmo se materializa nas alternâncias entre tableaux vivants e a profundidade de campo, numa evocação desse avatar da cultura que se confunde com o deserto.

Bibliografia

BRESSANE, Júlio. Conversa com Júlio Bressane/Miramar, Vidas Secas e o Cinema no Vazio do Texto. Cinemais, n. 06, Rio de Janeiro, jul.-ago. 1997. Entrevista a Geraldo Sarno e Carlos Avellar.

______. Cinemancia. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

BROWN, Peter. Corpo e Sociedade: O Homem, A Mulher e a Renúncia Sexual no Início do Cristianismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.

CAMPOS, Haroldo de. A Escrita Paradisíaca. In: DANTE ALIGHIERI. 6 Cantos do Paraíso. Trad. H. de Campos. Rio de Janeiro: Fontana / São Paulo: Istituto Italiano di Cultura, 1977

Meschonnic, Henri. Poética do Traduzir. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Perspectiva, 2010.

PARIS, Jean. Saint Jérôme. Paris: Éditions du Regard, 1999.

SAINT JÉRÔME. Vivre au désert: Paul, Malchus, Hilarion. Grenoble: Editions Jérôme Millon, 1992.

______. Lettres. Organização de Jérôme Labourt. Paris: Les Belles Lettres, 1949, t.1.