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  Título
Transe e Apatia: Terra em Transe e Memórias del Subdesarollo lllllllll
Autor
Fernando Rodrigues Frias
Resumo Expandido
Segundo Norberto Bobbio (BOBBIO,1997, P.100), pode-se afirmar que o intelectual deve ter uma ética da responsabilidade antes de se engajar. Pois bem, o engajamento de Paulo Martins presente em Terra em transe e a apatia de Sérgio em Memórias del subdesarollo estão assentados nesta ética?

A resposta é ambígua. Constata-se nos filmes: no plano diegético as oscilações são mais constantes do que as certezas. Sérgio nós é apresentado como um pequeno-burguês fechado na torre de marfim de seu apartamento observando tudo à distância, tal qual a cena em que observa através de uma luneta numa visão subjetiva a cidade de Havana. De cima a baixo, e com movimentos panorâmicos verticais e horizontais. É o olhar de um voyeur que se excita ao observar, mas não participa. Comenta em voz over: “Aqui tudo continua na mesma”. A cena é simbólica por nos apresentar uma metáfora de Sérgio, isto é, sua “prisão” e sua agonia. Na mesma cena se debruça no terraço tendo ao fundo a cidade de Havana numa luz estourada o que talvez nos indique a visão turva e indiferente de Sérgio frente à História. O único contato que consegue estabelecer com aquela Cuba pós-revolução é com Elena. Elena, por sua vez, é vista por ele como alguém incapaz de compreender o mundo da alta cultura, ou seja, alguém dos trópicos. Sérgio é incapaz em sua atitude blasé é de compreender o processo histórico que se opera em Cuba.

Em Terra em transe, podemos apontar um balanço crítico da atuação das esquerdas. Há na diegese fílmica a construção de uma alegoria da experiência nacional. A personagem central, o poeta Paulo Martins, apresenta-se como uma subjetividade em transe que logo na primeira seqüência do filme através de seu delírio de morte e da lembrança de sua experiência política.

O filme tem como principio formal o uso da narrativa indireta livre no qual a voz do narrador se mistura com a voz do personagem ora aderindo positivamente, ora executando a crítica. Temos um movimento entre o didatismo que é nos dado pelo balanço político das esquerdas e das forças sociais em questão e o fluxo desordenado de tempo expressos na sobreposição de elementos narrativos presentes no uso do som e na verborragia agonizante de Paulo Martins.

Dentro deste esquema didático é possível ver a lógica do poder político presente à esquerda e à direita, bem como a traição da burguesia nacional. Em síntese, a política feita por Diaz e Vieira está presa em palácios ou espaços fechados. Vieira executa uma farsa populista a qual o povo atua como figuração e, por sua vez, a força de Diaz advém de uma experiência conservadora e fascista que nos remete a mentalidade do colonizador presente nas esferas do poder e constituinte da elite brasileira. A expiação de Paulo Martins é vista de por uma câmera circulante num processo de repetições e tensões que não desembocam numa síntese. Paulo Martins é incapaz de estabelecer uma relação orgânica com qualquer movimento; sua poesia é agonizante e expressa seu desejo de morte e destruição numa espécie de teleologia da tragédia. A câmera circular expõe um tempo cíclico que se repete num labirinto sem saída. Por fim, ambos os personagens (Paulo Martins e Sérgio) representam a tensão, contradição e interação entre a esfera da cultura e a política, isto é, o jogo mais pragmático do poder. A agonia de ambos é fazer a junção destas duas esferas.

Bibliografia

BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: EDUNESP (Editora da Universidade Estadual Paulista), 1997.

CAPELATO, M. H. et al. História e cinema. São Paulo: Alameda, 2007.

Difel,1988.

FERRO, Marc. Cinema e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FORNET, Ambrosio (Org.) Alea: una retrospectiva crítica. Havana: Letras Cubanas, 1998.

JACOBY, Russel. O fim da utopia. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2001.

RÉMOND, René (Dir.). Por uma história política. Tradução de Dora Rocha. Rio de Janeiro: FGV, 2003.

RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2000.

ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

VILLAÇA, Mariana Martins. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.