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  Título
Scorpio Rising: pontos de escuta e a ascensão da canção popular
Autor
Leonardo Alvares Vidigal
Coautor
Marcos Pierry
Resumo Expandido
Em 1964, quando o cineasta norte-americano Kenneth Anger lançou o média metragem Scorpio Rising, a canção popular no cinema americano estava encerrada nos musicais, nas biografias de cantores e compositores ou em produções protagonizadas por estrelas da indústria fonográfica, como Elvis Presley. Diretores e produtores não consideravam a música popular como capaz de criar atmosferas, caracterizar personagens, expressar os seus sentimentos ou induzir emoções nos espectadores, entre outras funções. Isso era reservado para a música orquestrada e elaborada por grandes compositores herdeiros do romantismo, como Erich Korngold e Bernard Herrmann. Assim, praticamente não eram ouvidas canções populares extradiegéticas nas películas sonoras até então, mesmo que filmes silenciosos tenham sido também musicados por elas até o final dos anos 1920 (ALTMAN, 2001).

50 anos depois, as trilhas sonoras de filmes de todo o mundo muitas vezes são compostas apenas por exemplares de música popular. O filme de Anger foi um dos responsáveis por catalisar essa revelação do potencial expressivo da música popular, apresentando ainda questões teóricas importantes no tocante à interação com as imagens, as vozes cantadas e os seus múltiplos pontos de escuta.

Scorpio Rising é um filme experimental de 29 minutos de duração, cuja banda sonora traz apenas canções de sucesso, em segmentos bem demarcados. Ao mesmo tempo, traz imagens da comunidade de jovens motociclistas do Brooklyn,Nova York, em uma chave etnográfica – o quanto possível para o estilo confessional de Anger. Os ajustes mecânicos, o ronco dos motores, os acessórios, a vestimenta de couro, os enquadramentos da motocicleta, o labor dedicado em aprontar o veículo, as corridas e as transgressões cotidianas compõem o filme, que não traz falas, apenas canções e ruídos. O leque temático se diversifica e abre para questões sociais, políticas e culturais, como a constituição de um imaginário homoerótico e ocultista, temas recorrentes do universo do diretor (CASTRO E PIERRY, 2007).

Entender esse universo é uma das chaves para compreender o pioneirismo do filme. Kenneth Anger nasceu em Santa Mônica, Califórnia, em 1927. Desde criança conviveu com o meio cinematográfico, mas rejeitou as suas regras, escreveu sobre a hipocrisia e o moralismo da indústria e construiu um caminho próprio(SUARES, 2002). A obra de Anger, que se desenvolveu desde os anos 1940, foi crucial para a ascensão e consolidação do cinema experimental nos Estados Unidos (RENAN, 1970). A sua influência também pode ser sentida em cineastas como David Lynch, Martin Scorsese e John Waters, e também nos documentários e videoclipes contemporâneos.

O roteiro de Scorpio Rising é creditado a Ernest Glucksman, mas foi Anger quem o dirigiu, fotografou e montou, costurando habilmente o culto às máquinas e às estrelas do cinema com imagens de guerra, quadrinhos, suásticas, filmes de motoqueiros e Jesus Cristo. A música pop estabelece o ritmo dos 13 segmentos do filme, conforme o andamento de cada canção. Cabe ainda destacar o teor das letras,o diálogo intertextual entre elas e a dimensão simbólica de seus intérpretes na indústria cultural. Entre os artistas que comparecem com suas canções estão Elvis Presley (You’re The Devil in Disguise), Ray Charles (Hit the Road, Jack) e Bobby Vinton (Blue Velvet).

Assim, enfatizamos o modo como as 13 canções que integram o filme estruturam o seu discurso e compõem o inquietante inventário audiovisual de Anger. A forma como as letras das canções endereçam sua mensagem, na primeira, segunda ou terceira pessoa, e a sua relação com as imagens, estabelece um diálogo múltiplo de vozes e de escutas. Nem sempre claramente, o arranjo audiovisual faz com que a voz do motoqueiro se dirija ao espectador, a voz da moto se dirija ao motoqueiro e até mesmo a voz do diretor se dirija a um possível ouvido da moto, adicionando mais um ponto de escuta para os “doze ouvidos” listados por Michel Chion (2009, 299): o ouvido de objetos.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Cinema and Popular Song: The Lost Tradition. In: Wojcik, Pamela Robertson e Knight, Arthur (orgs.) Soundtrack Available: Essays on Film and Popular Music. Durham: Duke University Press, 2001

CASTRO, Chico e PIERRY, Marcos. Entrevista com Kenneth Anger. Rock Loco (blog). Disponível em http://rockloco.blogspot.com.br/2007/10/no-estou-nem-para-o-pblico-eles-que-se.html. Acesso em 13/10/2007

CHION, Michel. Film, A Sound Art. Nova York: Columbia University Press, 2009.

NOVAES, Rodrigo. Entrevista com Kenneth Anger. In: Limite – 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc-Videobrasil (catálogo). São Paulo: Edições Sesc SP, 2007.

RENAN, Sheldon. Uma Introdução ao Cinema Underground. Rio de Janeiro: Editora Lidador, 1970.

SUARES, Juan. Pop, Queer or Facist? In: Dixon, Wheeler Winston e Foster, Gwendolyn Audrey (orgs.). Experimental Cinema: The Film Reader. Londres: Psychology Press, 2002