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  Título
Live cinema entre matéria e memória: (Des)comentários a Bergson e o tempo real em performances audiovisuais
Autor
Wilson Oliveira da Silva Filho
Coautor
Leila Beatriz Ribeiro
Resumo Expandido
Não a toa um dos arautos da memória social, o filósofo francês Henri Bergson, versava sobre uma consciência cinematográfica do mundo. Pois se “o caráter cinematográfico do nosso conhecimento das coisas deriva do caráter caleidoscópio de nossa adaptação a elas” (BERGSON, 2005, p. 331), parece-nos que o cinema ao vivo cada vez mais consegue captá-lo e se faz a partir desse caráter. Essa consciência para Bergson ao mesmo tempo estaria engessada no cinema convencional. Pois o tempo do cinema é o de um escoar e de uma passagem suficientes em si como a noção de tempo contínuo (mesmo que os avanços posteriores montagem possa permitir saltos no tempo, mesmo que técnicas de montagem permitam elipses, retornos, o filme se passa em 10 minutos de um curta ou em hora e meia de um longa-metragem), enquanto no cinema ao vivo uma ou mais simultaneidades de instante se imprimem. Ao teorizar sobre a natureza do tempo não pensando-a kantianamente como um a priori do conhecimento, mas como continuidade e memória – mas não “memória pessoal exterior àquilo que ela retém”, e sim algo “interior à própria mudança, memória que prolonga o antes no depois e os impede de serem puros instantâneos que aparecem e desaparecem num presente que renasceria incessantemente” (BERGSON, 2006, p. 51) –, o filósofo francês nos insere em uma profunda discussão sobre o virtual. Tentamos crer que no simultaneísmo, próprio das performances com audiovisual, nossa adaptação ao virtual acontece com mais naturalidade. A memória é como uma coexistência virtual ou de virtuais acessados pelos performers de live cinema quando olham para um cinema para entender sua duração e transformação das imagens como objetos, como materialidade.

Uma mesma duração vai recolher ao longo de sua rota os acontecimentos da totalidade do mundo material; e nós poderemos então eliminar as consciências humanas que havíamos inicialmente disposto de quando em quando como outras tantas alternâncias para o movimento do nosso pensamento; haverá tão-somente o tempo impessoal, em que se escoarão todas as coisas (BERGSON apud DELEUZE, 1999, p. 65).

A leitura de Deleuze (1999; 2005) sobre Bergson nos soa ainda instigante para pensarmos o atual cenário das imagens e sons em movimento dessa nova prática que realizamos. Talvez Bergson pudesse reconhecer no live cinema um exemplo mais fidedigno às suas preocupações. Daí, ao longo de nosso trabalho tecermos descomentários a Bergson em duas frentes através dos conceitos de duração e de virtual que delimitam a nosso ver um importante vetor nas praticas de live cinema e em outras experiências do cinema expandido digitalmente (SHAW, 2003).

Paul Spinrad se interroga: “Qual o grande negócio de ser ao vivo? como estamos inundados por produtos de mídia, enlatados bem produzidos, comercializados em massa isso é fácil para nós esquecermos... Vjing nos liga com o momento e nos conecta com os outros”. (2005, p.13). A expressão live cinema se refere ao acontecimento, a “atração” como um todo a essa conexão, levando em conta o material audiovisual produzido, as performances, a audiência. Nesse trabalho nos debruçaremos sobre duas performances em particular para entender esse tempo bergsoniano do cinema ao vivo “Cinema das atrações” (2013) de Raimo Benedetti e “Contra(ções) do cinema” (2012) realizada por mim e pelo Vj Track e pelo work in progress de projeções “assombrando” antigas salas de cinema de Paola Barreto “Cinefantasma” (2013-).

Hibridizando meios e linguagens, o liveness nas performances aponta para uma possibilidade de articular o cinema ao vivo à memória no atual trânsito entre artes. Repensar Bergson nos parece fundamental nesse sentido. Se “O registro das origens do cinema recorda um tempo em que o cinema possuía mais um futuro do que um passado” (GUNNING, 1996, p.23) as atrações desse cinema em tempo real não esquecem as memórias que mediadas pelo aparato, pela materialidade e pela sensorialidade possibilitam um melhor entendimento da proposta bergsoniana.
Bibliografia

BERGSON, Henri. Duração e simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

______. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.



BLASSNIGG, Martha. Time, memory, consciousness and the cinema experience. Amsterdam: Rodopi, 2009.



DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.



DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo Godard. São Paulo: Cosac & Naify, 2004



DIJCK, Jose van. Mediated memories. Stanford University press, 2007.



GUNNING, Tom. Uma estética do espanto. Revista Imagens, São Paulo: Editora da Unicamp, n.º 5, ago. / dez. 1995.



MORAN, Patricia. Um tempo da imagem em que o movimento é o tempo. Disponível em: http://www.arte.unb.br/6art/textos/patricia.pdf. Acesso em: 12 jul. 2009.



SPINRAD, Paul. The vj book. New York: Paperback, 2008.



SHAW, Jeffrey. O cinema digitalmente expandido: o cinema depois do filme. In: LEÃO, Lucia (org.). O chip e o caleidoscópio.São Paulo: Senac, 2005.