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  Título
O Império das Coisas - ou o cinema não humanista de Cao Guimarães
Autor
Fernão Pessoa Ramos
Resumo Expandido


O cinema de Cao Guimarães é um cinema de encontro com o mundo. Embate que se dá em duas modalidades distintas: uma que vai ao encontro e penetra e outra que rodeia friamente e classifica.

As obras que encontram o mundo, partindo-o para além do humano, são os filmes fenomenológicos. São aqueles em que a proximidade com a matéria é tal que ela parece poder se suspender em si, brilhar em seu estatuto de coisa. Coisa que perfura a percepção - e a presença que faz matéria temporal. Coisa que faz brilhar do outro lado do cosmo, como aquilo que antecede. Matéria de si, ou coisa que pode se dispor para além da linha do tempo da duração como evento, é aquilo que quer ser imagem própria, imagem do tempo cristal que diz: “vou escapar do abraço fenomenológico, da presença do corpo na tomada”, mas ainda fica presa na ponta do pé. Alguns filmes de Cao Guimarães destacam-se pelo modo que a coisa acredita poder predominar sobre a matéria corpo. Neles, a coisa se levanta e acerta diretamente suas contas com o cosmos de que é feita, que não é humano, pois o antecede em ser carne no presente.

Mas é pela poesia que os planos, os filmes, acabam respirando e o entrelaçamento, o quiasma, com a carne do mundo, se revela incontornável. É ele, sujeito que sustenta a câmera, sujeito-da-câmera, que estende a mão e mede o encontro com o mundo. Mais mundo ele encontra pela frente (a matéria de outrem está rarefeita, mas ainda lá), mais ele (sujeito-da-câmera) se afirma como corpo no horizonte: primeiros planos de faces, escuta de vozes, ruídos trazidos pelas composições de ‘O Grivo’. É a matéria tempo esticando a duração, fazendo a humanidade estalar os ossos no chão frio das coisas. Pois o tempo coisifica a carne e o que tenta se revelar como humano leva na cabeça. Nas imagens de Cao Guimarães o tempo toma sua medida para esterilizar a camada gorda da humanidade. Quem levanta o afeto neste cinema é a matéria. Império que o humano apenas roça e que faz com que respiremos o ar leve e transparente da matéria nos filmes fenomenológicos. São eles, principalmente, os curta-metragens feitos entre 2004 e 2007 (Concerto para Clorofila; Da Janela de Meu Quarto; Através dos Olhos de Oaxaca; Quarta-feira de Cinzas; Pieote; Sin Peso), alguns anteriores (Sopro/2000; Inventário de Pequenas Mortes/2000) mas também posteriores (Limbo/2011), alguns de seus longas, como ‘Andarilho’ e, principalmente, ‘A Alma do Osso’.

Quando tendência da carne é virar coisa, fica clara sua distensão pelo compasso do tempo, dilatado numa variação que vai além da âncora da duração. É assim que a coisificação do corpo ocorre no cinema de Cao. Pois é ele, o tempo, que acaba sendo estendido, abrindo espaço para que a matéria homem adquira estranheza e brilhe foscamente, em um mundo que só deveria ser próprio para o que é além do humano. Pois a coisa do homem, fora do tempo, para onde a leva os grandes intervalos e a proximidade da imagem tátil (para onde a leva a pele da câmera), é um em-si-próprio, evento para além da humanidade. Nesse império, o cinema de Cao Guimarães parece se sentir à vontade, se sentir feliz em sua batalha, na elegia dos cosmos. Pois não é à percepção que ele é debitário. Ele se ajusta à câmera, pois é para ela, nesse regime do automatismo que rege seu maquinismo, que o mundo se ergue. É o que a libera como carne e a faz errar pelas pernas próprias (como as crianças correm para si, neste bloco de mundo que de nada veio, despencou de nada e nada sucederá, em Da Janela de Meu Quarto).

Mas a batalha com as coisas, a batalha do corpo com a matéria pelo reino das coisas, têm outras facetas no cinema de Cao Guimarães. Outras facetas além da sensibilidade atrofiada do humano, suspensa nesta espécie de redução não desabrochada, que estou chamando de fenomenológica. Trata-se da modalidade dos inventários, pelos quais coisas são dispostas e ordenadas. Aspecto que será desenvolvido mais amplamente na comunicação.

Bibliografia



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