/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Documentário e Ficção: Imagens Mutantes
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
A coexistência de elementos da ficção e do documentário é recorrente na produção cinematográfica recente. No campo do documentário, a década de 1960 foi marcada pela difusão do modo participativo, que enfatizava a intervenção do cineasta – atitude que ia de encontro a um pretenso caráter de realidade que deveria prevalecer no filme. Foi nesse período também que o modo reflexivo ganhou força: procurando explicitar as convenções que regem o processo de representação, apresentando o produtor e o processo de produção, evidenciando o caráter de artefato do documentário (DA-RIN, 2004).

Em contraposição, o cinema hollywoodiano clássico, nos anos 1960, se alicerçava no ilusionismo e na construção de uma diegese fílmica, tentando ao máximo esconder seu caráter de linguagem. Como relembra Carrière (1994), embora experimentos narrativos existissem a partir dos anos 1960 que iam de encontro ao realismo adotado pelo cinema hollywoodiano clássico, estes não chegaram a romper com a hegemonia deste último. Para o autor, ainda que essas iniciativas propusessem bases diferentes de se produzir e compreender o cinema, e ainda influenciem algumas produções recentes, a tendência que prevalece até hoje, no campo da ficção é a cristalizada pelo modelo clássico norte-americano.

Atualmente, observa-se uma tendência, por parte dos cineastas, de propor misturas ou aproximações das duas linguagens. Muito já se falou da absorção, tanto pela TV quanto pelo cinema de ficção, de recursos como a câmera na mão, que por muito tempo permaneceram atrelados ao gênero documental. Exemplo claro disso é o filme Tropa de Elite (2007), de José Padilha, uma ficção que utiliza imagem comumente associada ao relato documental. Curioso notar que o filme anterior de Padilha, Ônibus 174 (2002), era um documentário com narrativa bastante próxima da ficção.

É justamente sobre esses tipos de aproximações que este artigo se debruça, para em seguida apresentar uma análise dos filmes Jogo de Cena (2007) e O Céu Sobre os Ombros (2011) que exemplificam diferentemente esse processo de mistura de narrativas.

Há um traço distintivo entre as duas tradições narrativas: enquanto a documental designa uma forma de enunciação para a qual olhamos em busca de asserções sobre o mundo que nos é exterior (seja esse mundo coisa ou pessoa), a ficção pressupõe um pacto do espectador com o universo ficcional apresentado. Muito do debate atual no Brasil parece convergir para o fenômeno que pressupõe maior proximidade dos gêneros documental e ficcional.

Muito se fala sobre o uso de recursos típicos do documentário em longas de ficção, como também a inserção de elementos ficcionais na construção da narrativa documental. Fala-se também sobre ficções que são influenciadas por experiências documentais , e sobre a tendência que alguns documentários vêm apresentando de questionar cada vez mais sua pretensa capacidade de retratar o real. (BUTCHER, 2005; MOURÃO e LABAKI, 2005; LINS, 2007). Os dois filmes brasileiros discutidos aqui incorporam em sua narrativa algumas das aproximações mencionadas acima, introduzindo, talvez, a possibilidade de se falar em hibridismo entre gêneros.

Bibliografia

BUTCHER, Pedro. Cinema brasileiro hoje. São Paulo: Publifolha, 2005.

CARRIÈRRE, Jean-Claude, A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

DA-RIN, Silvio. Espelho partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.

LINS, Consuelo. “Documentário: uma ficção diferente das outras?” In: BENTES, Ivana (Org.). Ecos do Cinema: de Lumière ao digital. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.

MOURÃO, Maria Dora e LABAKI, Amir (Orgs.). O cinema do real. São Paulo: Cosac & Naify, 2005.