/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Cinema e Fenomenologia ou pela redescoberta de uma certa tradição teór
Autor
Julio Bezerra
Resumo Expandido
A fenomenologia provou ser uma rica base a partir da qual se desenvolveram variadas análises a respeito do cinema ao longo dos anos 40 e 50. Em um sentido mais elementar, a fenomenologia não é apenas uma corrente de pensamento que prioriza determinadas ideias e princípios, mas um modo de reestruturação da maneira de posicionarmos os problemas teóricos como um todo, não colocando o ente em seu ser, e sim procurando acompanhá-lo em seu próprio campo de manifestação. Maurice Merleau-Ponty, um dos grandes nomes desta corrente filosófica, já havia acenado para as diversas afinidades entre cinema e fenomenologia. E ela, em pouco tempo, atrairia nomes como Andre Bazin e Amédée Ayfre, que, inspirados pela emergência do neorealismo italiano, se voltariam para a metade realista da imagem cinematográfica. Michel Mourlet, Roger Munier e, posteriormente, Jean Mitry, tendo como base outras filmografias, também recorreriam à fenomenologia, em uma discussão sobre a imagem dentro de suas relações com o objeto do qual é imagem, sobre o que essa relação seria capaz de manifestar e que significados ela irradiaria.



Ao longo deste processo, ganham destaque discussões sobre a essência do cinema, a maneira como pensamento e coisa, exterior e interior são capturados na mesma textura, a proposição ontológica que as imagens põem em movimento, o papel do espectador, a capacidade de um registro do cotidiano, do contingente, do mundo em seu incessante devir... É nítida a presença do pensamento fenomenológico nas raízes e nos desdobramentos de cada uma dessas questões. Quando vão ao cinema, os autores de inspiração fenomenológica se movem em uma tentativa de descrever o valor e “a importância que todos sentimos em determinados momentos do cinema” (Andrew, 2002: 202). Eles compartilham uma certa primazia concedida ao plano imediato da vida, considerada como fundante e originária. Este ponto em comum se expressa na própria estrutura da experiência, encarada como contendo uma dimensão pré-reflexiva ou não discursiva que tem uma riqueza e uma complexidade particulares, e cuja ordenação linguística de significados é incapaz de superar.



Embora tenha exercido enorme influência em muitos campos, a fenomenologia tornou-se, contudo, pouco visível na teoria do cinema a partir dos anos 60. Espremida entre dois períodos de fortes e díspares cargas ideológicas (o realismo do pós-guerra e as rupturas desconstrutivistas), a corrente filosófica de Merleau-Ponty acabou sendo jogada para escanteio em meio à transição da era do cineclube para a universidade. Além disso, no momento em que o estudo do cinema era oficialmente sancionado pelo sistema universitário francês, os partidários mais brilhantes deste diálogo entre filme e fenomenologia, Bazin em 1958, Merleau-Ponty em 1961 e Ayfre em 1963, já haviam falecido, prematuramente, e aos poucos foram relegados a um longo período de ostracismo, quando não considerados como posições a serem superadas.



A hipótese maior que move esta apresentação é a de que a fenomenologia pode ser explorada como uma ferramenta valiosa no embate com o cinema. Ao buscar um reencontro com um contato mais ingênuo entre as formas, as cores, os planos, os movimentos e o que expressam para nós, o que se irmana em nós; ao desconstruir essas camadas de significados para poder reconstituí-las, no próprio filme, em seu fluxo e refluxo; ao nos convidar e/ou nos impor a vivência de uma experiência, uma espécie de partilhamento do olhar sobre as experiências dos personagens que existem naquele mundo constituído em filme, a fenomenologia nos faz vislumbrar maneiras diversas de nos relacionarmos com o cinema. O nosso objetivo, portanto, é travar, com ajuda de um alguns filmes contemporâneos, uma espécie de redescoberta desta tradição por muito tempo negligenciada, destacando uma de suas questões mais recorrentes: a ontologia.

Bibliografia

ANDREW, J. Dudley. As principais teorias do cinema: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

_________________. “The neglected tradition of phenomenology in film theory” em Wide Angle, vol.2, n° 2, 1978.



BAZIN, Andre. O que é o cinema ?. Lisboa: Livros Horizontes, 1992.



BUCK-MORSS, Susan. A tela do cinema como prótese de percepção. Florianópolis: PARRHESIA, 2009.



MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

_________________________. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2000.



RAMOS, Fernão Pessoa. A imagem-câmera. Campinas: Papirus, 2012.



SOBCHACK, Vivian. The Adress of the Eye: a phenomenology of film experience. Princeton: Princeton University Press, 1992.