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  Título
Nelson Pereira dos Santos: escrevendo com luz
Autor
Marise Berta de Souza
Resumo Expandido
Nelson Pereira dos Santos, cineasta que ocupa posição estratégica na constituição do moderno cinema brasileiro, tomou como referência na sua trajetória o percurso já trilhado pela literatura brasileira. Destacam-se, no conjunto de sua obra, filmes em que se serviu do expediente da transposição criativa – transcriação - e, por afinidade, se apropriou do texto literário e construiu suas imagens, imaginando-as cinematograficamente. Dessa forma, para criar um cinema endógeno, de matéria e expressão próprios, toma como referência o percurso da literatura brasileira e afirma que as experiências vivenciadas no moderno cinema brasileiro já haviam sido experimentadas, de diferentes modos e graduações, por esse meio de expressão artística.

As adaptações, ou o que se convencionou conter esse conceito, localizam-se, por definição, em meio ao corte superposto da transformação intertextual, de textos gerando outros textos em um processo infinito de reciclagem, transformação e transmutação. Assim, o trânsito intertextual se faz presente nas relações entre cinema e literatura. As possibilidades de inter-relacionamento dos dois meios de expressão artística são inúmeras, apesar de o aspecto dominante recair nas questões relacionadas à fidelidade das adaptações, sendo menosprezadas as particularidades e substâncias desses modos de expressão artísticas.

O projeto cinematográfico de Nelson liga-se à literatura num programa comum em que o autor cinematográfico via no autor literário uma extensão do seu desejo numa relação dialógica, dinâmica e viva, em que o ato criador passa a ser uma troca de informações, uma conversa íntima, partilhada, entre dois diferentes modos de criação e prazer: escrever e filmar. Um texto pode conter inclinações cinematográficas e um filme pode se servir de informações literárias, sem que com isto essas formas de expressão imponham subordinação uma à outra. Em uma transposição intersemiótica,” de um signo para outro” (PLAZA, 1987), qualquer pensamento é necessariamente tradução que se imiscui e se contamina, fazendo com que os sistemas e as técnicas convocadas para dar forma ao imaginário, tanto pelo cinema como pela literatura, mobilizem os variados níveis de composição e modos próprios de cada manifestação artística.

Nelson Pereira dos Santos, no conjunto de sua obra, experimentou essa relação de diferentes formas e muito proveito tirou disso. No seu processo criativo, fez escolhas a partir de um outro sistema de signos, a literatura, que pela própria constituição e diferença o levou a novas descobertas cinematográficas.

Essa conversa, tocada por um sentimento referencial sociopolítico com o autor literário, que toma o texto como um roteiro vivo, que ao ser lido o conduz e impulsiona para a criação do filme, foi mantida com alguns de seus autores preferidos, reconhecidos como intérpretes e contadores de Histórias do Brasil: Graciliano Ramos, Jorge Amado, Machado de Assis, entre outros. Nesta apresentação, será verificado como a prosa de Graciliano é traduzida e dialoga com a narrativa de Nelson.

Bibliografia

AVELLAR, José Carlos. O cinema dilacerado. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1980.

____________Entre a literatura e a história. São Paulo: Editora 34, 2013.

JAKOBSON, Roman, Linguística e comunicação. Trad. De Izidoro Blikstein e José Paulo Paes, 21ª ed., São Pulo: Cultrix, 1999.

JOHNSON, Randal. Literatura e Cinema, diálogo e recriação: o caso de Vidas Secas. In: Tânia PELLEGRINI (org.). Literatura, cinema e televisão São Paulo: Editora Senac São Paulo: Instituto Itaú Cultural, 2003.

In: Tânia PELLEGRINI (org.). Literatura, cinema e televisão São Paulo: Editora Senac São Paulo: Instituto Itaú Cultural, 2003.

PLAZA, Júlio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.



SADLIER, Darlene J. Nelson Pereira dos Santos. University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2003.



SALEM, Helena. Nelson Pereira dos Santos; o sonho possível do cinema brasileiro.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.