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  Título
Cinefilia, metáforas e memória afetiva como elemento fílmico
Autor
Ricardo Tsutomu Matsuzawa
Resumo Expandido
Na definição de uma linguagem audiovisual, o cinema com suas limitações tecnológicas iniciais se apropriou de algumas delas como elementos formais constitutivos. Os primeiros realizadores definiram um modo de produzir e os procedimentos de contar uma história. Antes de uma indústria estabelecida artesões aprendem e se estabelecem como autores/profissionais do cinema. No começo da segunda metade final do século XX, podemos perceber uma mudança no perfil dos autores. Além dos artesões profissionais e dos realizadores criados em uma estrutura industrial de cinema, uma grande parcela é composta por críticos, historiadores e estudantes de cinema formados por uma cultura cinéfila e com um estudo regular sobre cinema. Esta nova geração em que alguns seriam protagonistas dos cinemas novos se apropria de cenas e elementos formais de outros realizadores para construção de novos discursos. Uma ruptura significativa na elaboração em forma e sentido de suas obras.

Este estudo inicial busca analisar as relações da cinefilia dos realizadores com a produção dos seus próprios filmes. Os elementos fílmicos utilizados por outros diretores de cinema são reapropriados de acordo com a memória afetiva de cada realizador. Essas produções/reproduções organizam um novo sentido ou uma outra perspectiva para alguma cena, fotografia, som, montagem ou roteiro. Esta reflexão tem como objetivo apontar as convergências entre elementos formais estabelecidos historicamente, a apropriação de cenas emblemáticas, as releituras em produções fílmicas e a constituição da subjetividade dos modos autorais em uma nova configuração da referência apropriada.

Como objeto inicial de análise posso destacar o realizador Wim Wenders, que foi da primeira turma da Hochshule für Film und Fernsehen (Escola Superior de Cinema e Televisão de Munique) e antes de se tornar estudante de cinema, em uma temporada na França, tornou-se um frequentador assíduo da Cinemateca

Francesa. O cineasta afirma que, naquele ano, assistiu mais de mil filmes: algo que se transformou numa “paixão doentia”.

Observando a sua obra, percebemos que ele se apropria de planos e cenas em alguns filmes para um novo contexto. Por exemplo, na utilização de uma cena do filme “Paixão de bravo” (1952), de Nicholas Ray, que apresenta Jeff McCloud (Robert Mitchuam) procurando recordações escondidas em um local debaixo da casa em que viveu a sua infância: Wenders a incorporou de forma explícita em “No decurso do tempo” (1976). Bruno, um dos protagonistas deste filme, assim como Jeff, ao voltar à casa da infância procura recordações escondidas debaixo da escada da casa. Wenders comenta esta cena para Nicholas Ray em “Um filme para Nick”(1980), afirmando que a cena representa muito bem a volta para o lar. Percebemos, aqui, como Wenders emula os planos de Ray como forma simbólica do retorno, buscando em seu próprio repertório cinematográfico algo que tenha a força significativa que ele queria imprimir ao seu próprio filme.

O estudo pretende analisar como e de que forma as apropriações aparecem em algumas obras de Wenders e como estas metáforas audiovisuais se configuram como uma marca simbólica nas suas produções.
Bibliografia

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