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  Título
A pergunta de Capitu - antiilusionismo em Luiz Fernando Carvalho
Autor
mariana maciel nepomuceno
Resumo Expandido
Nos últimos anos, a TV Globo, hegemônica no Brasil, tem se inserido em um cenário complexo, em que sua liderança é ameaçada pela concorrência, vinda desde os produtos oriundos dos canais pagos das televisões por assinatura (vide o sucesso dos seriados americanos Breaking Bad, Game of Thrones e etc) e surgida também em outro canais da TV aberta que têm investido muito na teledramaturgia, a saber as produções de enredo bíblico da Record.

Partimos do pressuposto de que a Globo tem buscado caminhos que reeditem sua imagem e que possibilitem unir uma percepção de sua diferença em relação às outras emissoras nacionais e que possam captar também a atenção do espectador brasileiro já cativado por seriados de outros países. É neste contexto que ganham força projetos com maior liberdade de criação audiovisual, como aqueles liderados por diretores e roteiristas com vinculação ao cinema, como Jorge Furtado e Guel Arraes, e aqueles guiados por diretores que tiveram as carreiras construídas prioritariamente na televisão, como Luiz Fernando Carvalho e José Luiz Villamarim. As novas produções se esmeram, no entanto, em ressaltar a ligação existente entre cinema e TV, optando por manter na tela a estética realista dominante em nossa filmografia.

Este reposicionamento da TV Globo denotado pelo flerte com a estética cinematográfica pode ser percebido nas diversas propostas dramatúrgicas lançadas entre o final de 2013 e início de 2014.Com exceção do piloto dirigido por Luiz Fernando Carvalho, todas as séries mantiveram a estética realista dominante, o que permite investigarmos a possibilidade de entender a produção de Luiz Fernando Carvalho como singular dentro do contexto atual da televisão pode ser compreendida a partir de questionamentos sobre o espaço da ficcionalidade na teledramaturgia nacional. Questionamentos que envolvem, inclusive, o reconhecimento do espaço televisivo como espaço de reflexão e consumo da arte.

O objetivo deste artigo é analisar como o antiilusionismo presente no livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, é recriado pela microssérie Capitu, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. Um dos principais desafios de levar à televisão o enredo criado por Machado de Assis é manter as marcas de ambiguidade da obra. É manter sem resolução o enigma de Capitu. A proposta, aqui, é pensar que, para se manter fiel ao universo machadiano, Luiz Fernando Carvalho optou por uma construção metafórica do livro Dom Casmurro, que escapa às amarras lineares de tempo, à pretensão do ilusionismo e do naturalismo da dramaturgia televisiva. Esse movimento, lançado em Capitu, contribui, de acordo com nossa perspectiva, para desestabilizar a estética realista dominante na televisão.

Buscamos analisar os recursos estéticos das minisséries de Luiz Fernando Carvalho sem perder de vista o contexto e o suporte em que sua obra está inserida, identificando questões importantes concernentes a obra desse diretor, com a intenção de compreender como essa produção se singulariza diante de outras produções televisivas similares. Uma das principais possibilidades de análise é a possível ruptura entre a obra de Luiz Fernando Carvalho e o modo tradicional de se fazer televisão colocando em tensão o paradigma realista-naturalista da TV tradicional e do audiovisual brasileiro.

Bibliografia



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