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  Título
Cineclubismos das decadas 1970 e 1980: o exemplo do Cineclube Antônio
Autor
Marina da Costa Campos
Resumo Expandido
Em 1977, estudantes da Universidade Federal de Goiás e cinéfilos do Cine Rio reuniram-se para a fundação do Cineclube Antônio das Mortes, CAM. A entidade tinha como estrutura de funcionamento: exibição e debate de filmes, grupo de estudos e produção de filmes experimentais. O desenvolvimento do CAM o insere em um período importante da história política e social brasileira: é o momento do retorno das e manifestações estudantis, permanência da censura e a proliferação dos cineclubes em universidades, associações, sindicatos e movimentos populares. Outra transformação foi o surgimento de diversas concepções de cineclubismo dentro do movimento cineclubista. De acordo com Diogo Gomes dos Santos, desde a X Jornada de Cineclubes realizada em 1976 na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais começaram a se “delinear duas linhas antagônicas quanto à direção do movimento” (SANTOS, 2003, p.18).

Até 1977, o Conselho Nacional de Cineclubes era liderado, primeiramente, por Marco Aurélio Marcondes, e depois por Felipe Macedo. Macedo integrava um grupo caracterizado pela ligação com o Partido Comunista Brasileiro, o “Partidão”, e com cineclubes apartidários. Neste ínterim, emergiram outras entidades influenciadas por diversas tendências políticas, como as trotskistas, anarquistas, maoístas, leninistas entre outras. Muitos desses grupos advinham do movimento estudantil ou mantinham com ele forte ligação, como por exemplo, o Cineclubefau e a Libelu. Esta aproximação também ocorreu em outras regiões, como os cineclubes de Minas Gerais e o grupo Centelha; e, no Nordeste, entre as entidades e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o PCBR. Rubens Machado recorda-se que a convergência entre estas tendências estudantis no movimento cineclubista resultaram na criação de “uma tendência diferenciada e muito crítica dentro do movimento cineclubista nacional”.

Em 1978, na XII Jornada Nacional de Cineclubes realizada em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, promoveu-se a eleição direta para a presidência do Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), no qual as duas tendências se candidataram para o posto.

A chapa que dava continuidade aos trabalhos da gestão do Conselho era denominada Avançar. Liderada por Felipe Macedo, representava a maioria dos cineclubes e tinha como proposta principal promover a difusão do cineclubismo e a deselitização do movimento.

A outra tendência, a chapa Deflagração, era liderada por Rubens Machado Jr. Possuía ligações com grupos do Partido Comunista do Brasil (PC do B), com os anarquistas e trotskistas da Libelu, com os cineclubes de Minas Gerais e com a Federação de Cineclubes do Nordeste. Segundo matéria veiculada na revista Em Tempo, esta Jornada, assim como toda a eleição, foi marcada pela grande “polarização, mas equilibrada”, com a vitória da chapa Avançar por uma diferença de quatro votos.

Nesta disputa entre as duas tendências estavam em conflitos as posições dos cineclubes em relação ao que eles deveriam exibir: o cinema nacional popular; e como deveriam atuar: meros circuitos de exibição ou espaços para debates.

O Cineclube Antônio das Mortes esteve presente nesta Jornada de 1978, assim como as duas posteriores, de 1979 e 1980. Aproximou-se das ideias da chapa Deflagração e assumiu uma postura radical em todos os encontros. Realizaram, inclusive, um registro em Super-8 da XIV Jornada Nacional de Cineclubes, promovida em Brasília, no qual os integrantes fizeram uma performance diante das câmeras de televisão.

Esta proposta de apresentação tem o intuito de abordar este contexto do movimento cineclubista, a partir das tendências que existiram na época e como o Cineclube Antônio das Mortes participou deste processo. Objetiva-se trazer para a discussão a heterogeneidade deste movimento e tratar de um tema que não é abordado pelos trabalhos já realizados até então sobre cineclubes brasileiros.

Bibliografia

1 PROJETOR + 1 sala...?. Em Tempo. São Paulo, 20 a 30 mar. 1978, p. 8.

CHAPA Deflagração: carta programa. In: Cine-Olho – Jornal do Centro de Artes Cinematográficas. Rio de Janeiro: PUC/RJ, ano 1, n. 3, p. 8, dez. 1977.

SANTOS, Diogo Gomes do. Histórico das jornadas. In: Cineclubebrasil. São Paulo: Centro Cineclubista de São Paulo, ano 1, v. 1, p. 18, nov. 2003.

GATTI, André. Cineclube. In: RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs).

Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Editora Senac, 1997, p.128-130.

BELÉM JR, Lourival. Entrevista concedida a Marina Costa. Goiânia, 15/01/2013. GATTI, André. Entrevista concedida a Marina Costa. São Paulo, 26/11/2013. MACEDO, Felipe. Entrevista concedida a Marina Costa. Goiânia, 07/01/2014. MACHADO JR, Rubens. Entrevista concedida a Marina Costa. Goiânia, 08/01/2014. MUSSE, Ricardo. Entrevista concedida a Marina Costa. Goiânia, 04/03/2013.