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  Título
Luto como mãe: políticas de autorrepresentação e engajamento social
Autor
Maria Beatriz Colucci
Resumo Expandido
A proposta deste trabalho é discutir os processos colaborativos presentes nos documentários de autorrepresentação, a partir da análise do filme Luto como mãe, em que as várias etapas de produção incorporam alternativas de participação comunitária e aproximam o produto filme das construções etnográficas, da pesquisa e prática social. Tal proposta dá continuidade ao projeto “Cinema documental brasileiro: narrativas sociais e novos dispositivos” que concentrou o foco da análise na produção discursiva e na categorização de dezoito filmes, realizados entre 2002 e 2012, que se cruzam na ideia de autorrepresentação, seja esta delimitada pela negociação de sentidos do diretor com um grupo, ou pela atuação do próprio diretor como personagem ou narrador de uma história que remete ao universo de experiências pessoais e memórias afetivas.



No Brasil, a partir dos anos 2000, num momento de grande expansão da produção documental, se ampliaram, também, principalmente junto aos movimentos sociais, os espaços de construção audiovisual coletiva em que comunidades e grupos passam a produzir suas próprias representações imagéticas. Tais processos de construção da própria comunidade sobre a realidade cotidiana são, sem duvida, experiências singulares, pois tornam-se uníssono para outros que a compartilham, estimulando a elaboração de novas representações daqueles “[...] que eram – e são ainda – os objetos clássicos dos documentários convencionais, indivíduos de um modo geral apartados (por sua situação social) dos meios de produção e difusão de imagens” (LINS; MESQUITA, 2008, p.38). Essa tendência, que se aproxima do que chamamos engajamento social, apresenta grande potencial de mudança, pois quando o diretor compartilha com o sujeito fílmico a construção de sentido, manifesta uma posição política, o que tem um valor social simbólico para que “o outro de classe assuma o discurso e não seja abafado pela voz do cineasta” (BERNARDET, 2003, p. 126).



Na obra Luto Como Mãe, Luís Carlos Nascimento trata das histórias de mães que perderam seus filhos para a violência no Rio de Janeiro. Durante quatro anos, o diretor trabalhou com mulheres que filmaram, dirigiram e roteirizaram suas incansáveis narrativas de luta por justiça e visibilidade. Para Nascimento, o filme serviria “como fonte de informação para a sociedade e mobilização para a luta delas [mães], podendo desencadear ações vindas da sociedade, de mobilização colectiva”. Essas ações nos parecem ser, aliás, uma das questões a serem analisadas, pois se referem ao que queremos tornar visível, e isto não passa simplesmente pela definição de quem pode falar sobre quem (SHOHAT; STAM, 2006). É urgente rever algumas circunstâncias históricas, mobilizar opiniões em torno de preceitos estruturados e mostrar outro tipo de olhar sobre a comunidades e grupos, fora do pré-estabelecido. Contrapor as experiências cinematográficas em que a periferia é automaticamente vinculada à violência, por exemplo, pensando que o produto final fará parte da experiência cognitiva de um outro ponto de vista, pois os espectadores também compõem “a partir de suas experiências e valores, determinadas elaborações de sentidos a partir do que vêem nos filmes” (COLUCCI, 2007).



Se o cinema está interligado à história do país, caminhando lado a lado dos ciclos econômicos, políticos, sociais e culturais, é também espaço onde se constroem e reafirmam representações sociais do mundo. E mesmo o mais compartilhado dos documentários, “ao ceder espaço ao real, que o provoca e o habita, só pode se construir em fricção com o mundo” (COMOLLI, 2008, p. 173), devendo compreender as inevitáveis restrições das representações. Este será, como diz Comolli, um cinema engajado no mundo! Devemos reconhecer definitivamente, como analisam Shohat e Stam, que “o discurso artístico constitui a refração de uma refração, ou seja, uma versão mediada de um mundo sócio-ideológico que já é texto e discurso” (SHOHAT; STAM, 2006, p. 264).

Bibliografia

BERNARDET, J.C. Cineastas e Imagem do Povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

COLUCCI, Maria Beatriz. Violência urbana e documentário brasileiro contemporâneo. Campinas/SP: [s.n], 2007 (tese de doutoramento apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Multimeios). Disponível em: .

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

LINS, Consuelo; MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar , 2008.

LUTO COMO MÃE. Diretor: Luís Carlos Nascimento. Rio de Janeiro: TV Zero Cinema, 2010. 1 DVD (70 min).

SHOHAT, Ella & STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.