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  Título
Documentário e acervos audiovisuais: produção brasileira em ciências
Autor
Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho
Resumo Expandido
Esta comunicação pretende apresentar os primeiros resultados de um levantamento da produção brasileira de cinema e vídeo científicos e educativos em Medicina, Saúde Pública e Ciências, feito nos acervos da Cinemateca Brasileira, do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (NUTES/UFRJ) e do ICICT/Fiocruz. Tal rastreamento visa a complementação e ampliação da pesquisa iniciada há cerca de quatro anos cujo objetivo é refletir sobre a relação entre as imagens de arquivo e o cinema científico no Brasil, tendo por pressupostos: 1) que o cinema como fonte histórica possibilita mais do que uma reconstituição documental sobre o passado, pois elementos que compõem os filmes podem tornar-se relevantes para a remontagem da história, quando analisados em outra época; e 2) que a análise dos filmes de arquivo pode contribuir para a compreensão da matriz conceitual que marcou, e ainda hoje parece marcar, o modo como documentos audiovisuais divulgam conteúdos das ciências e da tecnologia e, em última instância, como as próprias noções de "ciência" e de "científico" são reafirmadas permanentemente.

Dando continuidade aos estudos anteriores, que se concentraram em desenvolver uma reflexão metodológica sobre a análise de documentários científicos, simultaneamente compreendidos como documentos históricos e gestos estéticos-políticos endereçados a um espectador, este trabalho busca estender as considerações anteriores buscando uma análise de acervos audiovisuais como conjuntos e séries de obras. Anteriormente, para identificar e analisar as dimensões representativa e comunicativa de documentários científicos, e a natureza das relações entre ambas dimensões, recorreremos a autores como o filósofo Michel Foucault. Foucault, em sua Arqueologia, nos ofereceu conceitos como o de campo correlacional. Um campo correlacional é o conjunto de relações exteriores estabelecido por uma imagem, um documento ou um arquivo no momento de sua produção ou no momento em que este documento é reapropriado. Um campo correlacional não se reduz ao referente, ao seu tema, objeto ou conteúdo. Os campos correlacionais apenas existem em potência, virtualmente, diferentemente dos referentes, e surgem apenas quando os documentos são submetidos a uma determinada questão/problema. Um campo correlacional tem a ver com as características formais, temáticas, históricas, estéticas do documento, com o gesto que o criou, mas também com o gesto estético-político que o "recriou" por meio de uma reapropriação.

Neste trabalho, e a partir dos resultados do levantamento feito, buscamos analisar como certos campos correlacionais se estabelecem em sua dimensão institucional, desta vez, não em relação a obras ou gestos apropriativos específicos, mas em relação à institucionalidade dos acervos e das intenções dos produtores e mantenedores desses acervos. A partir da análise transversal e em conjunto de informações de produção das obras identificadas e de dados históricos sobre a constituição dos acervos pesquisados, identificamos características gerais relativas aos campos de correlação estabelecidos entre determinadas obras, entre séries de obras e entre os próprios acervos entre si.

Bibliografia

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