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  Título
Igluscope, Redenção e o widescreen no Brasil (1950-1960)
Autor
João Luiz Vieira
Resumo Expandido
O presente trabalho é parte de uma pesquisa maior que amplia a compreensão do impacto, permanência e transformações do que chamo de realismo imersivo, o início e a expansão dos formatos de imagem panorâmica na década de 1950 no Brasil, com ênfase no Cinerama (1952-1962), sua chegada e difusão no Brasil e demais formatos que contribuíram para a redefinição do estatuto do espectador nos últimos 50 anos. Tal retorno nos ajudará a questionar cenários textuais que se desenham atualmente a partir da convergência tecnológica e criam situações híbridas de transformação do que conhecemos como cinema. Trata-se de um desdobramento de projetos de pesquisa anteriores relacionados a imagem e corpo. A diferença encontra-se na ênfase mais recente, voltada para investigações teóricas dos conceitos de espectatorialidade e recepção, a corporificação de olhares narrativos, a absorção do corpo do espectador no espetáculo através de tecnologias específicas historicamente datadas. Também no âmbito da pesquisa, a revisão do conceito amplo de hibridismo nas relações entre cinema e televisão, diferentes convergências textuais, tecnologias, regimes de espectatorialidade e plataformas introduzidas pelos formatos panorâmicos. A destacar o fato histórico de que essas convergências não ocorreram de forma linear, repetindo o que ocorreu em outras partes do mundo: antes da inauguração do primeiro cinema que exibiu o Cinerama, o público brasileiro já havia sido introduzido a outros formatos posteriores ao Cinerama, como o CinemaScope (em 1954, em SP e no Rio), seguido pelo VistaVision (1958) e Todd-AO, este, simultaneamente ao Cinerama. Novos perfis e situações de espectatorialidade redefiniram uma participação interativa sensorial, além de outras formas de consumo audiovisual renegociando novas relações com outras indústrias midiáticas. Estratégias retóricas de realismo imersivo, com ênfase nos processos panorâmicos tornaram-se populares no Brasil e sua chegada e desenvolvimento serão contextualizadas em uma cartografia de outros formatos que contribuíram para alterar, em parte, o status fixo do espectador aí pelo final dos anos 1950 e ao longo da década seguinte. Tal perspectiva histórica nos permite questionar aquilo que conhecíamos como espectatorialidade clássica (de perfil mais passivo, imobilidade, atenção dirigida a um foco central de interesse). Como parte da pesquisa, a atenção se concentrará na primeira experiência brasileira no formato panorâmico, realizada, inclusive, fora do eixo Rio-SP. Em 1957-58 na Bahia, a experiência inédita do produtor e cameraman Carlos Santana e do diretor Roberto Pires, resultou em Redenção, lançado em 1959. Santana e Pires pesquisaram, desenharam e construíram um sistema anamórfico original apelidado de IgluScope, lançando as bases para o desenvolvimento do cinema na Bahia e gerando frutos que estão na base do Cinema Novo em gestação na segunda metade da década de 1950. Qual é o significado cultural e a influência dos formatos panorâmicos no Brasil, depois dessa tentativa baiana? (outros filmes, outras experiências, como as do argentino C.H. Cristensen e Meus amores no Rio e Matemática zero, amor dez ou Quelé do Pajeú, de Anselmo Duarte em 70mm/seis faixas de som estereofônico). Que desafios trouxe Redenção, melodrama de suspense, intimista de estética “pobre”, P&B, para a poderosa Fox e sua patente CinemaScope que determinava que o formato era mais adequado a um modelo espetacular de produção conforme seus primeiros filmes (O manto sagrado e Como agarrar um milionário,)? A análise de Redenção, com ênfase no uso da paisagem natural, close-ups, ângulos, movimentos de câmera, montagem, profundidade de campo e enquadramentos, testemunham a combinação de impulsos normativos e experimentais, com alguns toques autorais. Com o cuidado de não cair na tentação de buscar relações diretas com o Cinema Novo, vale a pena arriscar alguma aproximação com a poética e a política do CN, em gestação.
Bibliografia

BELTON, John. Widescreen Cinema. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997.

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GRAU, Oliver. Virtual Art: From Illusion to Immersion. Cambridge, MA: MIT Press, 2003.

GRIFFITHS, Alison. Shivers down Your Spine: Cinema, Museums, and the Immersive View. New York: Columbia University Press, 2008.

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