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  Título
Os filmes de Paulo Gil Soares na Caravana Farkas: pedagogia e denúncia
Autor
Joyce Felipe Cury
Resumo Expandido
Os oito documentários (curtas e médias-metragens) dirigidos por Paulo Gil Soares entre 1964 e 1969 na experiência conhecida como Caravana Farkas retratam aspectos do Nordeste brasileiro: o cangaço em Memória do cangaço (1964); a rotina de uma fazenda do interior da Paraíba em Jaramataia (1969); o artesanato do couro em A mão do homem (1969); o abate primitivo do gado em A morte do boi (1969); o trabalho do vaqueiro em O Homem de couro (1969) ou seu momento festivo em Vaquejada (1969); o cultivo do fumo e a fabricação de charutos em Erva bruxa (1969) e o fanatismo religioso em Frei Damião: trombeta dos aflitos, martelo dos hereges (1969).

Os filmes inserem-se no projeto financiado pelo fotógrafo Thomaz Farkas, que reuniu cineastas com o objetivo de documentar o país, colocando na tela rostos, falas e gestos populares – preocupação em voga no contexto do Cinema Novo. A ideia era vender os filmes para a televisão e escolas, neste caso para que funcionassem como material didático de apoio em sala de aula. Nenhum dos dois ocorreu, devido à repressão instaurada a partir do golpe militar de 1964, e os títulos acabaram circulando em festivais, cineclubes e universidades.

Nosso interesse é identificar nos oito documentários dirigidos por Paulo Gil Soares recorrências que permitam a posteriori a construção de uma “matriz” (BERNARDET, 1994, p.31) para o conjunto deste diretor, delineando possíveis marcas de autoria. Pretende-se esboçar um “sistema estilístico” singular, partindo de instruções nos níveis da imagem e/ou do som, conforme propõe Roger Odin (2012, p.24-25) no artigo “Filme documentário, leitura documentarizante”. Nesse sentido, é também pertinente considerar os “modos de representação” documentais propostos por Bill Nichols (2010), sem a intenção de encaixar nosso objeto em modelos, mas utilizá-los para refletir sobre as diferentes estratégias adotadas nos filmes.

Com relação à voz over, há a predominância de uma enunciação direta nos documentários, de uma locução (sempre do próprio diretor) que tanto descreve e explica, por exemplo, como formaram-se os primeiros grupos de cangaceiros em Memória do cangaço, quanto questiona a resposta dos entrevistados Estácio de Lima e do coronel José Rufino. Trata-se de uma voz detentora do saber, que se coloca acima das outras, característica de um “modelo sociológico” de documentário, como propõe Jean-Claude Bernardet (2003, p.15-39) na análise de Viramundo (Geraldo Sarno, 1965), filme que também integra a Caravana Farkas. Há uma diminuição da presença da voz over assertiva em três títulos de Paulo Gil – Frei Damião, Vaquejada e O Homem de couro – nos quais percebe-se uma tentativa de recuo do cineasta, configurando-se em uma relação conflituosa entre a “voz do saber” e a “voz da experiência”.

No entanto, o discurso dos filmes não precisa ser explicitado pela voz over; ele emerge de uma articulação feita pela montagem, sendo recorrente o uso de uma montagem paralela que coloca em contraposição a fala dos personagens. É o que ocorre em Erva bruxa, quando a resposta do presidente do sindicato dos trabalhadores das indústrias do fumo sobre uma situação de demissão em massa é desmentida pela fala do representante de uma das indústrias. Trata-se de um deslocamento de um modo expositivo de documentário para um mais participativo, pensando na tipologia de Nichols (2010).

Quanto às imagens dos filmes, elas carregam “indícios de pobreza” – antônimo para os “indícios de riqueza” de Eduardo Morettin (2005, p.143). A miséria e a condição de vida precária aparecem quando pessoas disputam pedaços de carne deixadas ao ar livre em A morte do boi; quando o curtidor de A mão do homem é visto desnudo; e em tantas outras imagens do subdesenvolvimento, sendo possível uma vinculação com a “estética da fome” (ROCHA, 2004, p.63-67).

Os aspectos mencionados fazem com que o caráter dos filmes seja deslocado, constantemente, de um caráter pedagógico, de tom educativo; para o da investigação, de tom denunciativo.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

__________. O autor no cinema. São Paulo: Brasiliense, 1994.

MORETTIN, Eduardo V. Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso. São Paulo: Revista Brasileira de História, vol. 25, n.49, jan./jun. 2005, p.125-152.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas-SP: Papirus, 2010.

ODIN, Roger. Filme documentário, leitura documentarizante. São Paulo: Revista Significação, ano 39, n.37, 2012, p.10-30.

RAMOS, Fernão Pessoa. Cinema verdade no Brasil. In: TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.

ROCHA, Glauber. Eztetyka da fome 65. In: __. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, p. 63-67, 2004.

SOBRINHO, Gilberto Alexandre. A Caravana Farkas e o moderno documentário brasileiro: introdução aos contextos e conceitos dos filmes. IX Estudos de Cinema e Audiovisual Socine. São Paulo: Annablume,2008.