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  Título
Flagrantes de junho: uma análise do documentário "Com vandalismo"
Autor
Felipe da Silva Polydoro
Resumo Expandido
O documentário “Com vandalismo”, do coletivo de jornalistas cearense Nigéria, foi lançado em julho de 2013, logo depois da ocorrência do evento que tematiza: a onda de protestos de rua no Brasil, em junho daquele ano. Na época, os realizadores apontaram, como um dos valores da obra, a proximidade temporal entre os acontecimentos e a finalização do filme. De fato, o filme teve repercussão considerável: foi objeto de reportagens na imprensa e contava, em 17 de abril de 2014, com uma audiência superior a 155 mil visualizações no Youtube.



Seja porque a filmagem está concentrada em protestos compreendidos em um curto espaço de tempo, seja pela superficialidade da reflexão, seja pelo caráter urgente que é inerente às imagens captadas por câmeras portáteis na própria duração dos eventos: o fato é que o filme transmite essa urgência, encontra sua potência no efeito de imediatismo temporal e espacial, numa certa presentificação que, por vezes, parece apelar mais ao sensório do que ao racional. Também por isso, talvez não seja bem sucedido no seu objetivo declarado (conforme texto publicado no perfil do coletivo Nigéria no Facebook), o de problematizar a distinção entre os vândalos e os pacifistas, divisão amplamente adotada pelos veículos de comunicação hegemônicos na estruturação de narrativas jornalísticas sobre as Jornadas de Junho. Em certo momento, o narrador do filme revela a estratégia da montagem – que mostra em ordem cronológica quatro protestos nas ruas de Fortaleza, em quatro dias diferentes – de evidenciar a gradual superação da fronteira entre supostos vândalos e pacifistas. Porém, a recorrência de discussões entre os manifestantes, sempre tendo como pauta a dicotomia com/sem violência, nos encaminha à conclusão de que, não apenas a cisão é real, mas também de que é estruturante da massa de protestantes.



Este trabalho se propõe a realizar uma análise comparativa do filme “Com vandalismo” com vídeos digitais anônimos produzidos durante os protestos de junho (esses vídeos, tomados como objetos isolados, estão inseridos numa pesquisa mais extensa conduzida por nós sobre a proliferação de registros factuais anônimos captados por amadores e por dispositivos de vigilância). Preliminarmente, podemos apontar como ponto comum a já mencionada urgência das imagens: o alcance de um efeito de transparência que transmite a sensação de presença sem ocultar o dispositivo de filmagem e as condições de mediação (mais precisamente, que conta entre seus operadores realistas a ênfase nas condições de captação). Além disso, trata-se de um discurso audiovisual que angaria seu valor de verdade sobretudo da sua posição de contra-discurso em relação ao discurso hegemônico da grande mídia e de outras instituições de poder, cujo lugar enunciativo localiza-se (literalmente) ao lado da repressão policial. O filme mencionado, assim como boa parte dos registros anônimos feitos durante os protestos de junho e disponíveis na web, talvez encontre sua credibilidade e seu estatuto de fidelidade ao fato mais da relação de oposição à versão hegemônica do que das particularidades de evidência da imagem em si mesma.



Finalmente, percebe-se nestes objetos audiovisuais a dificuldade de se estabelecer uma explicação organizada para as motivações subjacentes ao acontecimento “Jornadas de Junho”. No filme “Com vandalismo”, que, sobretudo via montagem e narração, busca fechar o sentido e direcionar interpretações, percebe-se a ausência de unidade nos depoimentos dos manifestantes – em geral, são frases e ideias já-prontas, mera repetição de clichês. Como afirma Zizek (2013, s/p), tendo em mente não apenas os protestos brasileiros, mas também os movimentos no Oriente Médio, Grécia, Espanha, Estados Unidos, etc: “Há uma batalha acontecendo dentro dos protestos sobre o que eles próprios representam.”

Bibliografia

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



DIDI-HUBERMANN, Georges. Imagens apesar de tudo. Lisboa: KKYM, 2012.



NICHOLS, Bill. La representación de la realidade: cuestiones y conceptos sobre el documental. Barcelona: Paidós, 1997.



RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento. São Paulo: 34, 1996.



ZIZEK, Slavoj; David Harvey; et al. Cidades rebeldes. São Paulo: Boitempo, 2013.